Texto escrito por Álvaro Filho no JC Online.

Peter Pan conseguiu. O menino que não queria crescer chega aos 100 anos sem cabelos brancos (ou pior ainda, careca), rugas, artrite, perda de memória ou qualquer outro ônus que a idade avançada acarrete – incluindo aí a temida perda da libido, embora Peter seja tão criança que não saberia muito bem o que fazer com ela. A má notícia é que não há o que comemorar. O garoto de gorro com pena anda esquecido e nem mesmo a efeméride centenária foi capaz de resgatá-lo do ostracismo da indústria cultural.

Metade do ano se foi e uma edição especial da obra Peter Pan, de James Matthew Barrie, publicada pela primeira vez em 1911, ganhou as estantes e até que se tenha notícia, nenhum filme ou animação entrou em cartaz. E a culpa não é do Capitão Gancho, mas de um outro personagem que também tem lá seus truques: Harry Potter. O mago mostrou mais uma vez sua força monopolizando todas as atenções e salas de cinema incluindo talvez um multiplex na Terra do Nunca onde os garotos perdidos e até Wendy sentaram em frente à telona para acompanhar o esperado oitavo e último episódio da saga.

Mas, Peter Pan não precisa ficar com depressão infantil. Há quem ache pouco provável que alguém se lembre de Harry Potter daqui a cem anos. “Li todos os livros (de Harry Potter), vi os filmes e, apesar de reconhecer que a trama tem boa qualidade e ritmo, não trouxe nada de novo. Ao contrário de Peter Pan”, afirma a professora de literatura infantil da Faculdade Frassinette do Recife (Fafire), Nelma Menezes.

Antes que um castigo mais cruel que uma praga de Lorde Voldemort – leia-se: a ira dos fãs do mago – recaia sobre ela, Nelma se justifica: “A autora, Joanne Kathleen Rowling não causou nenhuma ruptura estética ou temática na literatura”. Para a professora, o órfão que vai para uma escola interna esteve presente em O ateneu, do escritor brasileiro Raul Pompeia, da mesma forma que a figura do bruxo do bem, explorada anteriormente por Maria Clara Machado em A bruxinha que era boa.

Nelma lembra que o status de clássico recai no fato de a produção artística nunca “terminar o que tinha para dizer” e permitindo uma interpretação diferente a cada leitura ou a descoberta de uma mensagem que não havia sido percebida. “Uma obra não é só uma fonte de entretenimento. Tem também a função de funcionar como um espaço de reflexão e descoberta”, explica a professora.

E nisso o velho (ou o novo, dependendo do ponto de vista) amigo de Sininho fez com perfeição, transcendendo inclusive a literatura. O drama de quem resiste ou se nega a envelhecer foi batizado por psicólogos e psicanalistas de Síndrome de Peter Pan, colocando o personagem no panteão de figuras da literatura e do cinema que batizam transtornos de personalidade, como Narciso, Cinderella e até Clark Kent.

O livro de J.M. Barrie é considerado uma das obras da idade de ouro da literatura infantil. Antes personagens secundários, as crianças passaram a assumir o papel de heróis em meados do século 19 com os adultos relegados a participações restritas. Uma ousadia que Peter Pan divide com Alice no País das Maravilhas, O mágico de Oz e As crônicas de Nárnia. Um período onde a fantasia ganhava espaço na rotina embrutecida fabril britânica.

Apesar da polêmica sobre longevidade, há entre Peter Pan e Harry Potter muito em comum. E talvez resida aí o fato de o segundo haver ocupado o lugar do primeiro no gosto de crianças e adolescentes. De início os dois estão na faixa etária do público-alvo (embora Harry não ligue em envelhecer), voam (um com a ajuda do pó das fadas, outro com uma vassoura modelo Nimbus, ano de fabricação 2001) e são órfãos.

Peter e Harry também precisam se deslocar (ambos de Londres) para universos paralelos – a Terra do Nunca e Hogwarts – e possuem inimigos públicos. Se bem que Lorde Voldemort ganha de longe no quesito maldade, incluindo aí o fato de haver matado com a própria varinha os pais de Harry. Já o Capitão Gancho, apesar da pinta de brabo, é bem mais humano. Tanto que perdeu uma das mãos para um crocodilo (por culpa de Pan, diga-se de passagem), que gostou tanto do sabor da carne do corsário que insiste em saborear o restante.

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