Publicado originalmente por Raquel Cozer em A Biblioteca de Raquel

Em abril, eu estava em Londres tentando descobrir alguma novidade no blablablá sobre livro digitais que antecedeu a London Book Fair quando um diretor da Bloomsbury falou a única coisa bombástica de todo o seminário: “O enhanced ebook morreu”. Era ou isso ou que o enhanced ebook estava dando os últimos suspiros, já não lembro. (Tá, talvez não tenha sido tão bombástico assim.)

Foi curioso porque os enhanced ebooks, ou apps de livro para iPad, enfim, esses livros interativos cheios de firulas de áudio e vídeo e interação para atrair quem não gosta tanto assim da leitura stricto sensu (ou distrair quem faz de conta que está lendo), tinham sido assunto longamente debatido em 2010 em sites americanos e ingleses. E fazia só dois meses que eu tinha escrito uma reportagem de capa para o Sabático sobre as primeiras investidas de editoras brasileiras no formato – todas as citadas ali tateando, gastando uma grana, sem saber se a coisa daria certo.

Era uma declaração exagerada a do diretor da Bloomsbury, mas ajudou a pôr uns pingos nos is. Os enhanced ebooks não iam mesmo acabar duma vez só com os livros de papel e os eletrônicos normais, como quiseram comentaristas mais apocalípticos. Mas representavam a descoberta de um novo nicho, em especial para crianças, que agora vem sendo explorado com menos, eu diria, deslumbramento.

Digo tudo isso por causa de um link que o Alexandre Rampazo me mandou ontem, do app para iPad baseado no The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore. O vídeo que originou o aplicativo é um curta animado do fim do ano passado, vendido a US$ 1,99 na iTunes Store. É inspirado “em iguais medidas no furacão Katrina, em Buster Keaton, no Mágico de Oz e no amor pelos livros”, e nele o personagem-título, apaixonado pela leitura, perde toda a biblioteca num furacão. O trailer:

Ilustrada por William Joyce (capista da New Yorker e ex-criador da Pixar e da Dreamworks cheio de prêmios Emmy) e produzida pela Moonbot, a história voltou a ser falada agora que saiu o aplicativo, a US$ 4,99 na App Store. O fato importante sobre o app do The Fantastic Flying Books of Mr. Morris Lessmore é que, a se considerar resenhas de sites especializados, ele é “the next big thing” no universo de possibilidades do ebooks 2.0 desde o de Alice no País das Maravilhas, de maio de 2010.

Aqui no Brasil, quem já  testou o novo aplicativo foi o Almir de Freitas, mas tem também o trailer do aplicativo para dar a dimensão:

 

 

Acho que o segredo fica resumido nesta frase do crítico do New York Times: ”As interações são feitas com o toque de um narrador, então elas geralmente servem à narrativa em vez de distrair dela.” É que, pelo que tenho visto, é comum o conteúdo extra dos enhanced ebooks não agregar nada à narrativa em si. Mas o NYT esclarece: é divertido para um adulto, mas, como experiência de leitura, não passa de algo recomendado para uma criança de sete anos.

E é preciso fazer outra ressalva aí. Ao contrário do app de Alice, que nasceu de um livro, o aplicativo de Mr. Morris Lessmore é baseado em um vídeo. Parece que vai virar livro de papel, também, mas só de ilustrações –  como acontece com tantos filmes animados da Disney, por exemplo. Porque ele é chamado de aplicativo de livro, e não de filme, fica fora da minha capacidade de compreensão.

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