Texto de Adriana Buarque publicado originalmente na revista Educar para Crescer

Desde a Antiguidade, há relatos de jornadas que podem ser uma ótima ajuda na hora de preparar um roteiro para as férias

Quando vai viajar, como você monta o seu roteiro de viagem? Hoje em dia é fácil planejar uma viagem com a ajuda da internet e dos guias de viagem, mas houve um período em que as coisas não eram bem assim. Poucas pessoas se aventuravam a encarar meses num trajeto cujo fim ninguém sabia. As informações do destino eram remotas, conhecer terras distantes era sinônimo de desbravar novos horizontes.

Foi nessa época que surgiu a literatura de viagem – travel writing, em inglês –, bem diferente dos guias de viagem que existem hoje. A literatura de viagem segue uma direção diferente dos guias: seduzir a imaginação do leitor com um texto envolvente, indo além de das anotações de um diário de bordo ou de uma descrição pura e simples. Também é diferente da literatura que se passa em uma determinada cidade ou país, como os livros que estão no nosso especial “Volta ao em mundo em (+ de) 80 livros”, pois é escrita por um “turista”.

A literatura de viagem é geralmente uma memória das experiências de uma pessoa visitando um lugar que não é o lugar que ela vive. Saiba mais nos tópicos abaixo:

Os primeiros registros

Narrativas como Odisseia de Homero datadas da Antiguidade Clássica ou Viagens de Marco Polo em plena Idade Média trazem consigo o olhar de jornadas que despertam a curiosidade de quem acompanha as aventuras por eles contadas. Uma perspectiva um pouco mais factual – mas não menos criativa – são as cartas de Pero Vaz de Caminha e Américo Vespúcio e a descoberta das Américas.

As primeiras viagens inercontinentais

A Renascença, também conhecida como Era dos Descobrimentos, criou um cenário favorável para a Europa em meio às artes e às ciências em pleno século XVI. O texto fundamental da chamada travel writing é de Richard Hackluyt (1552-1616) – Voyages (1589), em que relata as descobertas da Inglaterra em momento de expansão marítima.

As viagens científicas

Com o passar dos séculos, o gênero literário cria novos adeptos. Os impérios se expandem (principalmente Inglaterra e França) e chegamos ao século XIX com viajantes que aliam a literatura à ciência, incluindo o estudo de novas paisagens com a fauna e a flora consideradas “exóticas”, revelando nas entrelinhas o pensamento eurocêntrico dominante.

A literatura de viagem no século XX

A vivência antropológica apoiada na cartografia e no espírito investigativo dos autores desenvolveu-se com o passar dos anos, e no século XX a literatura de viagem encontra seu apogeu nas décadas de 70 e 80 sobrepujando o romance, uma vez que se utilizava de personagens e de um ritmo da narrativa, no entanto com base em fatos reais.

Desde então, a literatura de viagem delimita seu espaço dentro dos gêneros textuais atraindo um público de perfis variados, despertando o interesse na leitura de relatos de terras longínquas.

Conheça grandes obras da literatura de viagem

 

As Viagens de Marco Polo (Martin Claret): Em plena Idade Média (1271), o então jovem mercador realiza sua jornada ao longo da Rota da Seda até a China. Dividido em quatro livros, As viagens foi ditada pelo navegador a um escritor de romances, Rustichello de Pisa, enquanto permaneceu no cárcere em Gênova, entre 1298-1299.

 

 

Os Lusíadas – Luís de Camões (L&PM): O épico português narra a viagem de Vasco da Gama rumo às Índias, em plena euforia renascentista das grandes navegações. Num cruzamento de fatos históricos e mitologia, Camões exalta o heroísmo não apenas da nação portuguesa mas também de uma Europa que vivenciava a transição para a Era Moderna.

 

Viagens de um naturalista ao redor do mundo, vols 1 e 2 – Charles Darwin (L&PM): Em 1831, o naturalista britânico Charles Darwin partiu a bordo do navio Beagle numa viagem que durou cinco anos pela América do Sul, Terra do Fogo, Andes, ilhas Galápagos e Austrália. As anotações e observações dessa jornada foram fundamentais para a elaboração das teorias da evolução e seleção natural.

 

 

O grande bazar ferroviário – Paul Theroux (Objetiva): Partindo de Londres, o autor segue viagem rumo ao Extremo Oriente pontuando suas observações argutas com sutileza e ironia. O trem é o meio de transporte que faz da jornada um trajeto inusitado, com situações que retratam a riqueza e a diversidade cultural das regiões por onde Theroux passa.

 

A viagem do Oriente – Le Courbusier (Cosac Naify): As anotações do então jovem arquiteto franco-suiço Le Corbusier trazem registros de roteiros pouco conhecidos até hoje pelos Balcãs, Atenas e Istambul. O olhar estético que influenciaria toda sua trajetória já aparece nas entrelinhas deste manuscrito que descreve paisagens desconhecidas e insólitas.

 

Europa: Reportagens apaixonadas – Ronny Hein (Panda Books): Como o próprio título indica, o livro vai além de considerações objetivas. Tudo o que desperta paixão transforma e seduz, o que não é diferente em relação ao continente europeu e os textos sobre ele escritos.

 

 

A epopéia de Gilgamesh (WMF Martins Fontes): Uma das primeiras obras da literatura mundial, os poemas narram as proezas e desventuras de Gilgamesh, rei de Uruk, na Mesopotâmia (atual Iraque). Os escritos foram compilados em VII a.C. pelo rei Assurbanipal e antecedem em pelo menos 1500 anos os textos de Homero na Grécia.

 

 

Paratii, entre dois pólos – Amyr Klink (Companhia das Letras): O livro nasceu das anotações do diário de bordo do navegador, acostumado a desbravar os mares em companhia de si mesmo. Klink atravessou 50 mil quilômetros até chegar à Antártida e às geleiras do Ártico, colocando em prática mais um ousado projeto.

 

Diários de bicicleta – David Byrne (Amarylis): Defensor do uso da magrela como meio de transporte nas grandes cidades, o ex-líder da banda de rock Talking Heads apresentou suas idéias para uma platéia entusiasmada durante palestras na Feira Literária de Paraty e em São Paulo. A experiência de pedalar sobre duas rodas em metrópoles como Berlin, Nova York, Buenos Aires e Istambul estão registradas nas páginas de seu livro.

 

A incrível viagem de Shakleton – Alfred Lansing (Sextante): Por intermédio de documentos e entrevistas, o autor em reconstituiu a viagem de Sir Ernest Shakleton realizada em 1914. O que era para ser uma jornada em direção ao Atlântico Sul tornou-se uma aventura em meio a desafios superados por Shakleton e sua tripulação.

 

Caderno de viagem de Debret – Julio Bandeira (Sextante): Registro de cenas, pessoas e costumes pontuam esta edição fac-símile do caderno de viagens do pintor francês Jean-Baptiste Debret. Além de mostrar a elite do Rio de Janeiro no início do século XVIII, apresenta um quadro permeado por uma população brasileira que aos olhos europeus parece totalmente exótica.

 

Diário de viagem – Albert Camus (Record): Publicado na França em 1978, a publicação traz os relatos do filósofo existencialista em relação aos Estados Unidos (1946) e à America do Sul (1949), com uma passagem inclusive pelo Brasil. Aqui, encontra-se com intelectuais, artistas e escritores, pessoas com as quais pode fazer observações sensíveis como o país é um lugar “onde os sangues misturam-se a tal ponto que a alma perde seus limites”.

 

A casa do califa – Um ano em Casablanca – Tahir Shah (Roça Nova): A compra e a reforma de uma mansão no Marrocos é o mote para a narrativa, levando o leitor a decifrar nuances de uma experiência peculiar, distante de sua realidade tanto do ponto de vista geográfico quanto cultural.

 

 

Israel em abril – Érico Veríssimo (Companhia das Letras): Em companhia de sua esposa Mafalda, o escritor relata sua passagem em 1969 no novo Estado sionista. Com seu olhar apurado, levanta questões acerca do futuro de uma cultura que se torna uma civilização.

 

As crônicas do Brasil – Rudyard Kipling (Landmark): As crônicas foram publicadas inicialmente em sete artigos no Morning Post, entre 29 de novembro e 20 de dezembro de 1927. Contém as vívidas, apuradas e intuitivas impressões de Rudyard Kipling sobre o Brasil e o povo brasileiro. Este livro mostra como o Brasil era visto e admirado pelos grandes escritores do século XX.

 

 

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