Publicado originalmente no Jornal Floripa

Um capítulo crucial da criptografia moderna poderia ter sido perdido se não fosse pelo hobby de um professor que colecionava livros antigos de códigos de telégrafo.

O colecionador é Steven M. Bellovin, que leciona ciências da computação na Faculdade de Engenharia da Universidade Columbia e ex-pesquisador de segurança de computador da AT&T Bell Laboratories.

 

Em recente viagem a Washington, ele decidiu passar a sua tarde na Biblioteca do Congresso, procurando livros de códigos que não faziam parte de sua coleção.

No século 19, tais livros eram usados para confidencialidade e compactação, com fins de reduzir o custo proibitivo da comunicação por telégrafo –os primeiros cabos transatlânticos custam US$ 5 por palavra. Os encarregados da codificação dividiam listas de palavras para substituir frases e até mesmo sentenças.

 

Quando Bellovin vasculhou o catálogo de cartões, seu interesse voltou-se para um livro de códigos de 1882 cujo título incluía a palavra “confidencial”.

 

“Pensei: OK, deixe-me ver como eles faziam isso”, lembrou. “Quando li o prefácio de duas páginas, meu queixo caiu”.

 

Ele pôde ver nitidamente que o documento descrevia uma técnica chamada bloco único 35 anos antes de sua suposta invenção durante a Primeira Guerra Mundial por Gilbert Vernam, engenheiro da AT&T, e Joseph Mauborgne, último chefe da Army Signal Corps.

 

Embora não amplamente usado hoje devido à dificuldade relativa de trabalho, o bloco único ainda é visto como uma das maneiras mais seguras de criptografar uma comunicação.

 

CÓDIGOS ALEATÓRIOS

 

A técnica é distinguida pelo uso de um código aleatório, compartilhado por ambas as partes, para codificar a mensagem e decodificá-la –o código deve ser usado somente uma vez e depois descartado de forma segura.

 

Foi o uso incorreto da técnica pela União Soviética –os encarregados dos códigos reutilizavam ocasionalmente blocos únicos em vez de descartá-los– que originou o projeto Venona, colaboração entre os serviços de inteligência dos Estados Unidos e do Reino Unido que rendeu golpes de decifração de códigos durante a Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria.

 

A monografia de 1882 que Bellovin encontrou na Biblioteca do Congresso chamava-se “Telegraphic Code to Insure Privacy and Secrecy in the Transmission of Telegrams” (“Código Telegráfico para Assegurar a Privacidade e Confidencialidade na Transmissão de Telegramas”, em tradução livre), de Frank Miller, banqueiro bem-sucedido de Sacramento que posteriormente tornou-se fiduciário da Universidade de Stanford.

 

No prefácio de Miller, os principais pontos estavam destacados na página: “Um banqueiro do Oeste deve preparar uma lista de números irregulares para serem denominados ‘números de troca”‘, ele escreveu. “A diferença entre esses números não deve ser regular. Quando um número de troca for aplicado ou usado, ele deverá ser apagado da lista e não ser usado novamente.”

 

Isso fez com que o atônito Bellovin tentasse descobrir na internet se a inovação de Miller era conhecida pelos inventores posteriores –os resultados de seu extenso trabalho de investigação on-line podem ser conferidos na edição deste mês do jornal “Cryptologia”.

 

Nascido em Milwaukee em 1842, Miller estudou em Yale e depois entrou para as Forças Armadas da União. Ferido em uma batalha, foi transferido para o gabinete do general inspetor do Exército, onde se tornou membro do esquadrão de detetives que investigaram o assassinato de Lincoln, o que Bellovin especula que tenha sido seu primeiro contato com a criptoanálise.

 

Parece que ele mantinha um diário que ainda pertence aos seus descendentes, mas Bellovin não conseguiu obtê-lo.

 

De acordo com vários especialistas independentes em criptografia, Miller foi sem dúvida o primeiro a propor o conceito do bloco único.

 

“Miller provavelmente inventou o bloco único, mas sem saber por que ele era perfeitamente seguro ou até mesmo que ele era seguro”, disse David Kahn, autor do livro “The Codebreakers” (“Os Decifradores de Códigos”, em tradução livre), de 1967.

 

“Além disso, diferente da invenção consciente de Mauborgne, ou da adoção consciente do bloco único pelos alemães, não tinha eco nem utilidade para a criptologia. Afundou sem deixar rastros, até Bellovin encontrá-lo por acidente’.’

 

Bellovin não encontrou evidências de que Vernam ou Mauborgne sequer conheceram Miller, mas descobriu mais uma pista tentadora, nas páginas sociais do jornal “The San Francisco Chronicle”. No baile militar no Presídio em 1907, Miller conheceu Parker Hitt, criptógrafo que foi aluno e colega de Mauborgne.

 

“É quase certo que, se Hitt tivesse conhecido o sistema de Miller”, escreveu Bellovin, “ele teria compartilhado esse conhecimento com Mauborgne quando estudaram juntos na Army Signal School em Fort Leavenworth”. Mas, como ele mesmo reconhece, isso ainda é uma grande hipótese.

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