Hilary Mantel lança o premiado Wolf Hall

Texto de Luis Antônio Giron publicado originalmente na revista Época

Prestígio. A autora inglesa Hilary Mantel em 2010. Ela ganhou o Man Booker Prize de 2009 com o romance histórico Wolf Hall

A escritora britânica Hilary Mantel ganhou em 2009 o Man Booker Prize – o prêmio literário mais importante do Reino Unido – com um romance que aparentemente não se adequaria aos critérios da alta literatura tão prezados pelo júri. Wolf Hall (Record, 586 páginas, R$ 59, tradução de Heloísa Mourão) aborda um dos assuntos mais explorados pelas artes: a história do rei inglês Henrique VIII e sua procura por uma esposa que lhe desse um herdeiro varão, o que o levou a romper com o papa Clemente VII e se tornar líder da Igreja Anglicana.

Alguns jurados tentaram desqualificar o livro, alegando tratar-se de mais uma deturpação da história. Talvez não tenham lido a obra com atenção, pois Hilary Mantel, de 59 anos, não tem nada a ver com aquelas especialistas em romances históricos que enchem as estantes das livrarias com narrativas feitas de pimenta e açúcar. Esses best-sellers tratam do comportamento sexual dos reis ingleses e viram filmes e séries, como o romance A outra, de Philippa Gregory (adaptado para o cinema em 2008, com Natalie Portman no papel de Ana Bolena), ou As seis mulheres de Henrique VIII, de Antonia Fraser – consultora da famosa série de televisão The Tudors (2007-2010). Em 26 anos de carreira, Hilary Mantel perseguiu os temas do mal e do acaso. Encontrou um tesouro no passado. Em seu 11º romance, procurou revolver fatos históricos para recobrar dignidade de um gênero que já nasceu mais fantástico do que fiel às fontes. Essa forma tem na saga dos Tudors, de que Henrique VIII faz parte, seu campo de especulação mais rico.

A dinastia Tudor reinou na Inglaterra de 1485 a 1603. Foram 118 anos de disputas dinásticas, guerras, decapitações e sexo que forneceram assunto para entreter o público nos 400 anos seguintes. Os artistas adaptaram a história às necessidades de suas peças de teatro, livros, filmes e séries de televisão. Surgiram inúmeras e improváveis variações sobre os mesmos temas. E a história se rendeu à fantasia. Logo após a morte da última representante da linhagem, Elizabeth I, os teatros londrinos apresentaram dramas que exaltavam o caráter e a grandeza dos Tudors – prova da complacência do novo monarca, Jaime I, filho de Maria Stuart, decapitada por Elizabeth I. Uma das primeiras tentativas de lidar com os Tudors se deu em 1613. O dramaturgo John Fletcher e seu provável parceiro William Shakespeare levaram à cena o drama Henrique VIII no Globe Theatre. A peça versava sobre seu reinado, de 1509 a 1547. A dupla incorreu em erros para criar uma imagem positiva do protagonista. A trama ignora, por exemplo, a decapitação da segunda mulher de Henrique VIII, Ana Bolena. Ela é mostrada dançando com o rei em uma mascarada e dando à luz Elizabeth I. Os autores também erraram ao caracterizar Thomas Cromwell, ministro do rei, como o vilão que perdeu a cabeça por ordem real.

Foi o começo de uma série de deturpações que chegaram aos dias de hoje com foro de verdade inquestionável. Em 1960, o drama O homem que não vendeu sua alma, de Robert Bolt, consagrou a imagem de Cromwell como o maligno rival de sir Thomas More (1478-1535), mais tarde santificado pelo papa. A peça fez tamanho sucesso que virou filme em 1966. More (Paul Scofield) figura ali como o campeão da moralidade, ao condenar que Henrique VIII se divorciasse de Catarina de Aragão – e se afastasse do papa. Cromwell assumiu a posição contrária. Ajudou o rei a desmontar os mosteiros católicos e o aconselhou a executar More como colaborador papista.

Wolf Hall dá uma resposta à demonização de Cromwell. A autora se interessa menos pela vida sexual do rei do que pela carreira de seu ministro, cuja imagem pretende reabilitar. “Eu me espantei com a figura de Cromwell e quis entendê-la”, afirmou Hilary Mantel a ÉPOCA. “Sua vida combina com a forma do romance: seus dias de dificuldade e obscuridade, sua escalada à riqueza e ao poder e sua queda repentina.” Por trás do rei que colecionava mulheres, havia, segundo a autora, uma raposa política que pretendia fortalecer o trono e libertar os ingleses do jugo da Igreja Católica. Isso não faz de Cromwell um santo aos olhos da autora. Ele se valeu de inteligência e maquiavelismo para cumprir seu projeto de poder. Filho de um ferreiro que o maltratava, o jovem Tom aprende a se virar sozinho. De peripécia em peripécia, ele entra para a Igreja e se torna assessor do cardeal Thomas Wolsey, conselheiro do rei. Henrique VIII quer o divórcio de Catarina de Aragão depois de 20 anos de casamento e várias tentativas frustradas de gerar um filho. Wolsey não convence o papa e é deposto. Cromwell assume seu lugar, ajuda o rei a se casar com Ana Bolena e a decapitá-la por adultério.

O enredo do romance conta como Cromwell escapa das conspirações palacianas e manipula o governo. Para isso, usa a energia sexual do rei como combustível para o processo de independência religiosa da Inglaterra. Perseguindo seus interesses, os personagens parecem voltar à vida: o rei, religioso e com dom artístico, é assombrado por dilemas morais; Catarina, bela e enérgica, não se dobra ao marido; Ana Bolena aparece não muito bonita, explosiva, vítima dos interesses da coroa; e Thomas More atua menos como mártir do que um agente do papa. O título do livro é uma referência à propriedade da família de Jane Seymour, a terceira mulher do rei, mais uma aposta no jogo de Cromwell.

Para entrelaçar tantos episódios turbulentos, a autora se vale de três ferramentas: a pesquisa nos arquivos britânicos, a técnica narrativa moderna e a devoção ao tema da crueldade. Não assume o tom solene que alguns autores usam para abordar o passado, muito menos adota o estilo alcoviteiro dos “romances para moças”. Os diálogos de Wolf Hall soam atuais e se cruzam com a rapidez da ação. A combinação proporciona uma leitura irresistível. Hilary Mantel refundou um tipo esquecido de ficção histórica, aquele que paradoxalmente procura ser fiel à história.

Gustavo Tomsich/Corbis e Stock Montage/Getty Images (3)

 

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