.

Texto de Carlos Araújo publicado originalmente no Jornal Cruzeiro do Sul

Por Admir Machado

No dia 6 de agosto serão completados 10 anos da morte de Jorge Amado, um escritor com o incrível dom de contar histórias de um jeito todo especial e que faz da leitura um imenso prazer. A Bahia é o seu mundo, uma versão da máxima que sugere: “Escreve sobre tua aldeia e serás universal.”

“Mar Morto”, “Capitães da Areia”, “Gabriela, Cravo e Canela”, “Dona Flor e Seus dois Maridos”, entre tantos outros livros, são romances de Jorge Amado que podem ser lidos com o prazer de quem faz uma viagem. O universo é a Bahia com seus personagens populares: as prostitutas, os trabalhadores do cais e do cacau, os atabaques e o candomblé, os malandros, os bêbados, os excluídos de forma geral. E também os coronéis, detentores do poder absoluto numa sociedade desigual, e seus jagunços da tocaia.

Os personagens entraram para a memória brasileira: Guma, Lívia, Pedro Bala, Antonio Balduíno, Dona Flor, Tereza Batista. Muitas dessas criações foram adaptadas para a televisão e isso contribuiu para a difusão das obras, popularizou os personagens e celebrizou a atriz Sônia Braga como eterna Gabriela em telenovela da Rede Globo.
Enquanto os leitores amam Jorge Amado, a crítica, nem tanto. Ao mesmo tempo em que os leitores se deliciavam com as aventuras de Pedro Bala e Jubiabá, os críticos acusavam o escritor baiano de criar típos que eram meros estereótipos e fantasias: a mulata, o negro, a viúva transformada em amante do marido que morreu, os trombadinhas que se dão o direito de sonhar e padecer de indignação. Associavam parte desse perfil à fase comunista do autor e o acusavam de contaminação ideológica vinculada ao realismo socialista pregado pela antiga União Soviética.

A obra de Amado nasceu em 1933 com a publicação de “O País do Carnaval”. Seguiram-se os romances de temática social como “Cacau” e “Suor”. Nada mais natural numa época em que o romance nordestino projetava tipos populares para o primeiro plano das histórias de ficção. Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz e José Lins do Rego seguiam o mesmo rumo, igualmente influenciados pela estética do realismo socialista, e também produziram obras importantes como “Vidas Secas” (Ramos), “O Quinze”” (Rachel) e “Menino de Engenho” (Zé Lins). E tudo isso numa época (os anos de 1930) fértil para a literatura brasileira. A diferença é que Jorge Amado se destacou como grande sucesso de vendas, aqui e no exterior, e isto a crítica não perdoa.

A crítica tem o hábito de ditar regras que compõem uma espécie de modelo de qualidade para a ficção. Nada mais inútil numa seara em que a liberdade é que dá o tom. O mais importante é que os leitores, em outro nível de relação com a obra, deram vitalidade a Jorge Amado ao ponto de transformá-lo em algo semelhante a um embaixador informal da Bahia e do Brasil no exterior. Ignorado pela Academia Sueca, que não lhe concedeu o Nobel, ele é “amado” pelos leitores e com certeza esse foi o seu maior sonho e sua felicidade.

O peruano Mario Vargas Llosa, Nobel de Literatura de 2010, ao analisar o estilo de Jorge Amado de celebrar a alegria de viver e fazer dela uma arma contra o pessimismo, escreve em seu “Dicionário Amoroso da América Latina”: “”Não sei se esta concepção é mais justa que, digamos, a de um Faulkner (William Faulkner, Nobel de 1949) ou a de um Onetti (Juan Carlos Onetti, clássico uruguaio), que são seus antípodas. Mas, graças à feitiçaria de consumado escritor e à convicção da fantasia em suas histórias, não há dúvida de que Jorge Amado tem sido capaz de seduzir com elas milhões de leitores agradecidos.”
O escritor brasileiro não estava preocupado em renovar a linguagem ou apresentar novas e mirabolantes técnicas narrativas. Seu objetivo era contar bem as histórias do povo da Bahia. Indescritível, em “Mar Morto”, o drama de consciência de Guma diante da sedução de Esmeralda, mulher do seu melhor amigo. E, como contador de histórias, Jorge Amado foi mestre.

Nas últimas décadas, muita gente entrou no mundo da literatura por meio das portas abertas pelos seus romances, especialmente “Capitães da Areia”. Esses romances levaram gerações inteiras a outros autores porque mostravam que um livro pode ser tão sedutor e divertido como um programa de lazer no fim de semana. Livros, para serem bons, não precisam necessariamente ter a engenharia criativa do francês Marcel Proust ou a vocação demolidora do irlandês James Joyce.

Jorge Amado surpreendeu muitos dos seus críticos ao escrever “A Morte e a Morte de Quincas Berro D”Água”, um dos seus mais belos e inventivos textos. E ser simples não significa ser menor. Que o diga Ernest Hemingway, o famoso autor de “O Velho e o Mar” que ganhou notoriedade pela obsessão com o texto essencial, livre de gorduras e muletas. O francês Gustave Flaubert, outro estilista por definição, também lutou por um texto simples, sem rebuscamentos, e disso fazia profissão de fé.

“Seara Vermelha” é outro livro fundamental de Jorge Amado da fase tão atacada pelos críticos. E é um romance de qualidade, que conta as agruras de famílias miseráveis pelo sertão do Brasil. São as histórias do “Brasil profundo”, que combinam o sublime dos sonhos e o grotesco de uma realidade devastadora. Essa estética utilizada para transformar matéria bruta em literatura também foi trabalhada pelo gatemalteco Miguel Angel Astúrias, autor do fabuloso “O Senhor Presidente”, um autor também importante, Nobel de Literatura de 1967.

Lendo os romances de Jorge Amado da fase do cacau, tenho a impressão de que estou diante do meu avô paterno, contador de histórias por excelência e que prendia a minha atenção por longas horas com as suas narrativas de lendas e assombrações num Nordeste povoado por homens que se destacavam pela coragem e a disposição para correr riscos. Meu avô não existe mais, Jorge Amado também não. Quando os homens viram pó, ficam suas histórias.

Enquanto muitos críticos esnobam Jorge Amado, os leitores e também uma parte da crítica se apaixonam cada vez mais pela obra deste baiano que veio ao mundo para a diferença na literatura universal.
Se a Inglaterra tem Charles Dickens, os Estados Unidos têm Ernest Hemingway, a Rússia tem Máximo Gorki e a França tem Honoré de Balzac, nós, brasileiros, temos Jorge Amado e seu poderoso e vasto mundo de mitos e encantos.

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments