Texto de Luisa Bustamante publicado originalmente no Jornal do Brasil

Eduardo Fenianos, ou @urbenauta, utiliza a ferramenta como termômetro para medir a aceitação do público

“Os tais 140 caracteres refletem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”, disse certa vez José Saramago sobre o Twitter. Pois ainda que o consagrado escritor português condenasse os pequenos textos, parece que a internet vem testando seus limites com a literatura. Exemplo disso é o trabalho do jornalista Eduardo Pinheiros Fenianos, que lançou uma Twitt Novel na rede.

@urbenauta, como é reconhecido no site, viajou durante 185 dias pelo Brasil com um salário mínimo por mês e hospedagem na casa  de estranhos solidários, aventura que deve virar livro, a ser lançado no carnaval do próximo ano. O diferente é que a expedição virou uma novela online de cinco capítulos (ou tweets) diários, em que o escritor dá uma pequena prévia do que viu em cada um dos seus destinos. A iniciativa funciona como um termômetro – maneira que Eduardo encontrou de saber se a narrativa está a gosto do leitor – ou, pelo menos, do internauta.

“Gosto de dizer que o livro vai ser o banquete e o Twitter, o aperitivo ”, disse. “O trabalho de escrever é solitário, mas ao dividir com as pessoas, não me sinto tão só assim. Além disso, tenho o retorno do público e acabo sabendo quais temas posso desenvolver mais do que o faria a princípio”.

Hospedar-se na casa de desconhecidos foi fundamental para humanizar a expedição

Hospedar-se na casa de desconhecidos foi fundamental para humanizar a expedição

A viagem, o Twitter e o livro são as maneiras que o escritor, que é jornalista, encontrou de mostrar o Brasil sob um novo ponto de vista. Para Eduardo, o fato de viajar com pouco dinheiro e se hospedar na casa das pessoas ajuda  a quebrar determinados estereótipos criados pela sociedade. Sobre o Rio de Janeiro, cidade do calor, praia e corpos esculturais, um tweet do aventureiro diz: “O Rio está me revelando a beleza das mulheres gordas. Elas têm uma gordura dura, viçosa. Rostos lindos. Suas pernas lembram a Pedra da Gávea”.

Eduardo fala, também, sobre a sua experiência nos morros cariocas. Diz que, na favela da Rocinha, na Zona Sul da cidade, foi abordado por traficantes com mais gentileza do que em condomínios de luxo.

Eduardo (E) entrevista um pescador

Eduardo (E) entrevista um pescador

“Lembro que subi distraído, com câmera e tudo, e um traficante veio me perguntar, com a maior calma do mundo e uma metralhadora nas costas, o que eu estava fazendo ali”, recorda, acrescentando que o que mais o encanta a respeito das comunidades é a “capacidade das pessoas se humanizarem”.

Novo olhar sobre o Brasil

Foco do próximo livro, desconstruir estereótipos é o principal objetivo do escritor, que começou sua viagem em Porto Alegre e foi em direção à Brasília, onde terminou sua jornada. E se o Rio de Janeiro, com suas mulheres gordas e traficantes educados, deixou uma impressão positiva no escritor, outras localidades também quebraram paradigmas.

“Cheguei em Salvador e vi pessoas estressadas, correndo atrás de dinheiro feito loucos. Não é bem a ideia de ‘cidade do axé que temos’”, comenta. “Em algumas cidades da Amazônia, como Rio Branco, por exemplo, tive duas impressões: de um lado, a cidade mais limpa que eu já vi na minha vida. De outro, um lugar que, ainda que estivesse no seio da floresta amazônica, tem menos árvores do que São Paulo”.

Eduardo conta também que se surpreendeu com indígenas “que falam inglês e dirigem caminhonetes importadas” e com um gritante machismo no Nordeste. “O machismo está mais vivo do que nunca naquela região. Vi se manifestar dentro das casas e me chamou muita atenção a forma como as mulheres nordestinas ainda são tratadas como vassalas”.

Para o projeto, o escritor dedicou seis anos a pesquisas e sete meses para a viagem, que, ao se tornar livro que ainda tem o título em segredo, pretende fazer um retrato do país com estes pequenos fragmentos. “Quero mostrar que a realidade que eu vi é bem diferente daquela que ouvimos falar mil vezes”.

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