Grandes nomes do rock descobrem como recuperar o dinheiro que perderam nas mãos das gravadoras e se aproximar ainda mais do público – escancarando, em livros, suas vidas eletrizantes

Juliana Dal Piva, na ISTOÉ

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“Eu experimentei sexo gay quando era mais jovem, mas não me deixou satisfeito”
Steven Tyler em “Este Barulho na Minha Cabeça te Incomoda?” (Saraiva, 2011)

Sexo e drogas sempre moveram a vida dos grandes nomes do rock mundial e, se ao longo do tempo eles se esforçaram para esconder determinados detalhes de suas histórias, hoje, esses astros não apenas contam episódios antes mantidos em sigilo como os editam e vendem nas melhores livrarias. Sobreviventes de uma geração que experimentou ao máximo o sentido da palavra liberdade – para o bem e para o mal –, artistas como Keith Richards, Eric Clapton, Anthony Kiedis (vocalista da banda Red Hot Chili Peppers), Ozzy Osbourne e Patti Smith fizeram as grandes editoras travar verdadeiras batalhas para comprar os direitos de publicação de suas autobiografias. No mês que vem desembarca no Brasil, pela editora Saraiva, “Este Barulho na Minha Cabeça te Incomoda?”, de Steven Tyler, vocalista do Aerosmith e sucesso como jurado do American Idol. Em 2012 será a vez de “Pete Townshend: Who, He?” (Quem, ele?), com as memórias do guitarrista do The Who, sob a chancela da poderosa editora HarperCollins. E não para por aí. Morrissey, dos Smiths, marcou o lançamento de sua obra para dezembro do próximo ano.

“Esse tipo de produto se encaixa perfeitamente no modelo de negócios 360o que o mercado musical vem experimentando”, diz o produtor Brendan Duffey. A regra é simples: com a queda na venda de discos, os músicos vêm buscando alternativas para gerar receita e também se aproximar do público. O resultado tem sido o sucesso editorial. “Vida”, escrita pelo guitarrista dos Rolling Stones, Keith Richards, em parceria com o jornalista James Fox, ficou por 22 semanas na lista dos mais vendidos no “The New York Times”, além de ter lucrado cerca de R$ 10,5 milhões. E não é nada difícil entender o porquê de tanta curiosidade sobre as revelações de Richards.

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“Conor simplesmente correu pela sala e foi direto janela afora”
Eric Clapton (Sobre a morte de seu filho de três anos, que caiu do 53º andar)
“Eric Clapton: a Autobiografia” (Planeta, 2007)

No livro, o companheiro de Mick Jagger conta que há 20 anos não entra no camarim do amigo de infância, pois ele se tornou “insuportável”. Não satisfeito, o músico apelidou o vocalista de “Brenda” e “Sua Majestade” e dá detalhes até dos dotes sexuais de Jagger – recentemente, se desculpou publicamente pelo excesso de sinceridade.

Richards foi no embalo de Ozzy Osbourne e Eric Clapton, os precursores no filão autobiográfico. Clapton, aliás, tem algo em comum com o guitarrista dos Stones: o desafeto por Jagger. Ele lembrou, em “A Autobiografia”, do episódio no qual o rolling stone roubou sua namorada, Carla Bruni, hoje primeira-dama da França, no final dos anos 1980. “Queria matá-lo. Passei um bom tempo tramando maneiras de destruí-lo ou simplesmente fazê-lo desaparecer”, diz Clapton. Diferentemente dos outros, o seu livro tem um tom de autorreflexão: mergulha no relacionamento com Pattie Boyd, que se casou com ele depois de sua separação do beatle George Harrison de quem foi a musa inspiradora de algumas de suas mais famosas canções, como “Layla” e “Wonderful Tonight”. No mais triste de seus relatos, o músico recorda o momento em que seu filho, o pequeno Conor de três anos de idade, caiu do 53º andar de um prédio em Nova York, em 1991: “Conor simplesmente correu pela sala e foi direto janela afora.” Após o lançamento do livro, ele diz que se curou de “algumas feridas”.

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“Johnny, um tolo babaca sob tantos aspectos” Keith Richards
(referindo-se a John Lennon) “Vida” (Globo, 2010)

Para o gerente editorial da editora Saraiva, Luis Colombini, por mais famosos que sejam, os roqueiros não garantem o sucesso nas livrarias. O livro tem de ter bom conteúdo, como qualquer outro relato biográfico. “As biografias sempre existiram, só precisam de uma boa história”, diz ele, reconhecendo que “o mundo do rock é pleno delas”. Já a editora Benvirá foi responsável por “Eu Sou Ozzy”, de autoria do excêntrico líder do Black Sabbath. O título, lançado em 2009, é um dos grandes sucessos desse mercado e vendeu por volta de 30 mil exemplares. O diretor editorial Marcos Becker, da Globo Livros, define o critério básico: “Uma biografia deve ser bem escrita e ter credibilidade.” Ele explica que “sempre haverá espaço para textos com qualidade que narrem trajetórias de vida marcantes”. Parece que está falando do combustível comum e essencial aos roqueiros.

O produtor musical Rick Bonadio vê o lançamento dessas obras como forma de fazer as novas gerações conhecer a importância desses artistas. “Não acredito que os faça voltar à ribalta”, disse ele à ISTOÉ. Motivo: o glamour das homéricas bebedeiras já não é tão forte. “Durante os anos 1970 e 1980, drogar-se fazia parte do marketing dos artistas, mas hoje em dia não faz diferença. Tendo talento não precisa pagar de Freak (algo como encarnar o tipo doidão).” No Brasil, a tendência também é forte e já conta com a adesão de nomes como o de Erasmo Carlos.

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“Os únicos espíritos do mal com os quais quero ter contato após o final do show são uísque, gim e vodca!”
Ozzy Osbourne “Eu Sou Ozzy” (Benvirá, 2009)

O livro “50 Anos a Mil”, do roqueiro Lobão vai virar filme – especula-se que o ator Rodrigo Santoro será o protagonista. Um longa-metragem parece ser a última etapa de um caminho cada vez mais natural: primeiro ser estrela de rock, depois ser autor da própria biografia.

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