Publicado originalmente por Antonio Gonçalves Filho em O Estado de S.Paulo

Aos poucos a fotografia deixa de ter um papel hegemônico em publicações para ceder lugar à ilustração – e isso, obviamente, tem a ver com custo. Hoje ficou impraticável publicar livros de arte devido ao alto preço que museus e herdeiros de artistas cobram para permitir a reprodução de obras e mesmo imagens de artistas. A saída natural que revistas e jornais têm buscado é recorrer a bons ilustradores, capazes de captar não só a expressão facial, mas transmitir ao leitor dados adicionais sobre a atividade do retratado. Um bom exemplo é a caricatura do escritor português Antonio Lobo Antunes (foto maior nesta página), feita há dois anos pelo patrício André Carrilho, de 37 anos, publicado por jornais como The New York Times Independent. O ambiente português está lá, ao fundo, definindo o universo literário do autor lisboeta de Ontem Não Te Vi em Babilônia.

 

Carrilho é um dos 80 ilustradores selecionados pelo editor Julius Wiedemann para o livroPortraits, abrangente panorama do retrato contemporâneo por artistas gráficos premiados como Carrilho e disputados pelas maiores publicações do mundo. Entre seus colegas no livro estão Anita Kunz, Hanoch Piven, Jody Hewgill, Josie Jammet (autora do retrato de Kubrick, ao lado), Liz Lomax (que assina a caricatura de Mick Jagger, também ao lado), Jason Mecier, além de seis brasileiros tão bons quanto os ilustradores estrangeiros citados: Cristiano Siqueira, Glauco Diógenes, Kako, Mateu Velasco, Nice Lopes e Tiago Hoisel (autor da caricatura de Sylvester Stallone nesta página). Dois deles, Glauco e Kako, participam amanhã de uma conversa com o editor Julius Wiedemann, no lançamento de Portraits pela editora alemã Taschen. Trata-se de uma edição trilíngue (português, espanhol e italiano) que traz um texto especialmente escrito pelo diretor de arte, jornalista, editor e crítico americano Steven Heller, autor de vários livros sobre linguagem gráfica.

Alguns ilustradores, diz Heller, nasceram para ser caricaturistas, pela capacidade de transcender a “simplista visão fotorrealista”. Entre os seus preferidos, cita Carrilho e Hannoch Piven, artista espanhol conhecido por usar dentaduras artificiais, objetos e frutas para compor seus retratos, à maneira do renascentista Archimboldo. Para Heller, ambos conseguem acrescentar aos desenhos informações biográficas e até sentimentos – nesse caso se referindo ao americano Donald Stermer, que uniu num só retrato os rostos de Melville, Dostoievski e Flaubert, reforçando as afinidades entre esses grandes autores.

Heller observa ainda que, felizmente, os tempos mudaram: os editores acompanharam, de modo geral, a evolução da caricatura e evitam pedidos aos ilustradores para que submetam seus retratos ao modelo caucasiano consagrado no passado. “Hoje, de certa forma, são representações mais honestas.” E os jornais e revistas, acrescenta Julius Wiedemann, “têm indubitavelmente contribuído para o aumento da utilização de retratos ilustrados”.

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