Texto de Camila Kehl publicado originalmente no Livros Abertos

Fico mais triste do que seria sensato quando leio inverdades sobre o meio em que me sinto inserida. Sobre o meio pelo qual transito e no qual respiro. E acredito que ninguém melhor do que quem vive pelas letras — fora do blog, sou redatora e revisora — para lhes contar um pouquinho daquilo que veem, pensam e sentem essas pessoas diferenciadas apaixonadas pela arte e pelo conhecimento (que não detêm este último, mas antes o perseguem ininterruptamente por pura paixão platônica).

Qualquer um imagina, apelando para um estereótipo bem difundido, que os aficionados por literatura frequentem a tríade livraria, sebo e biblioteca. De um pro outro — incessantemente. Embora sejam estes os locais onde mais comumente podemos ser encontrados, de forma alguma nos limitamos a eles. E não os achamos divertidos: os consideramos simplesmente irresistíveis, mas com uma mistura de sofreguidão, euforia e avidez que pouco ou nada pode ser atribuída ao simples prazer, lazer ou passatempo. Ao nos defrontarmos com os acervos, nos deparamos com aquilo que já conhecemos — os maiores nomes desse panteão incrível do qual muitos querem fazer parte — e também com nossa impossibilidade. Quem não se lembra da cena clássica do seriado Two and a Half Men em que Allan Harper abraça vários livros enquanto chora porque jamais, em toda a vida, conseguirá ler tudo o que gostaria? É mais ou menos por aí.

Somos estranhas figuras que veneram Joyce e Borges porque gostam muitíssimo da arte escrita, essa que atravessa anos, décadas e séculos e que mudança alguma na ordem das coisas pode apagar. Entendemos a importância da palavra e os malabarismos maravilhosos que se pode fazer com um idioma até conduzi-lo a um patamar assombroso, emocionante e antes impensável.

Gostamos do caráter subversivo da literatura e de forma alguma nos enquadramos no padrão clássico do intelectual compenetrado e certinho. Eu não conheço uma pessoa culta que aspire à santidade e ao bom mocismo. Muito pelo contrário. As constantes leituras nos apresentam mil possibilidades de jeitos e mundos. Nos mostram outras faces e outras características. A cultura, portanto, nos ensina a usar a sensibilidade tanto quanto a racionalidade, nos instiga a ser pessoas melhores e a dar vazão àquilo que nos diferencia dos outros animais, mas nunca a negar a existência do nosso lado instintivo. Tampouco dos nossos defeitos, que são, afinal, defeitos demasiado humanos.

Não queremos nada, e ao mesmo tempo queremos. Queremos a arte, queremos viver da arte, e sabemos que é improvável, então vamos levando e vamos lendo e vamos vivendo.

Eu e aqueles com os quais gosto de debater (e aqueles que debatem com seus respectivos amigos em outros estados) adoramos um bom boteco como cenário das conversas literárias e filosóficas. Cafés também, mas em menor escala. O mais aclamado é o chopinho, e não importa que as mesas e as cadeiras sejam de plástico e levem o símbolo de alguma marca de cerveja. E nesses bate-papos deliciosos, que não podemos ter com muita gente, surgem assuntos que vão de bobagens sem importância, mas infinitamente divertidas, a espinhosas e complexas conjeturas literárias, passando por história, antropologia, sociologia e por todas as outras artes. E por games e tecnologia (quanto mais nerd, pior) — é por isso que, embora não seja fã de sua escrita, posso entender Pola Oloixarac e seus dilemas. Enquanto alguns se limitam a futebol, nós somos os incompreensíveis e os incompreendidos. E não ligamos.

Paraty, por exemplo, com a famosa Festa Literária Internacional. As livrarias estavam abarrotadas. A Casa de Cultura também. Mas as grandes atrações eram os bares, com suas mesinhas que atravancavam as ruazinhas irregulares do centro histórico. E se via mãos que gesticulavam com ferocidade e copos que tornavam a se encher de cachaça e de cerveja. Eu mesma, quando tinha um tempo entre uma mesa de autores e outra, corria a um daqueles amáveis botecos e me punha a escrever enquanto meu copo era abastecido permanentemente com aquelas caipirinhas maravilhosas. E via passar ao largo de onde estava sentada a fauna mais diversificada que se tem notícia.

Porque os amantes da literatura são assim mesmo: diferentes em milhares de pontos, física e ideologicamente, e divergentes em várias opiniões — mas, no que acabo de descrever, basicamente iguais.

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