Publicado originalmente por Rafael Grampá no IG

Fábio Moon, Gabriel Bá e Rafael Albuquerque ganharam o maior prêmio da indústria de quadrinhos dos EUA este ano, o “Oscar dos quadrinhos”, o EISNER AWARDS. Isso aconteceu há alguns dias, mais precisamente dia 23 de Julho, no também maior evento de quadrinhos dos Estados Unidos, a San Diego Comic Con. Isso pode ser uma notícia atrasada pra quem acompanha quadrinhos, porém esse post não é exatamente sobre essa grandessíssima novidade.

Na semana passada eu fui participar do evento Viñetas con Altura, que acontece em La Paz, Bolívia (como noticiei no post anterior) e lá pude desenvolver ótimas conversas com os artistas latino-americanos que estavam participando do evento. Um dos assuntos que me pegou de surpresa foi sobre a cara dos quadrinhos brasileiros, a visão de fora do Brasil. Só pra introduzir um pouco, uma das coisas que os autores brasileiros discutem entre si é que o quadrinho brasileiro não tem uma escola, uma cara. Pois não é bem o que os artistas argentinos, bolivianos, uruguaios e venezuelanos acham. Todos têm uma visão bem segura de que os quadrinhos brasileiros estão na sua melhor fase, têm uma idéia de que o mercado aqui dentro está em constante crescimento e que ouvem falar do ótimo desempenho que nossos artistas vem tendo no Brasil e exterior. Bom, nós aqui também temos mais ou menos essa visão, porém nem tão segura sobre nós mesmos. “E qual a cara dos quadrinhos brasileiros pra vocês?”, perguntei. “Acho que o traço solto, com pincel ou caneta e a prioridade pelo autoral vem sendo o grande outdoor do novo quadrinho brasileiro. Todo artista que está se destacando no Brasil tem essas qualidades e é esse o padrão que nós, de fora, vemos”. Bom, é óbvio que isso é muito subjetivo para ser a cara dos quadrinhos brasileiros, mas acho que se contarmos a quantidade de autores e diferenças entre nós, essas duas qualidades podem até se encaixar facilmente. O traço solto é uma qualidade de quem está no caminho para dominar o seu próprio estilo, e isso quer dizer, então, que nossos artistas estão indo cada vez melhor. Mas o que tem demais em ser autor? Acho que as diferenças em ser autor, para os outros artistas, são as novas propostas na mídia dos quadrinhos que um projeto autoral sempre impõe. Todo autor quer propor algo novo, quer elevar o mínimo que seja a mídia e isso é importante para os outros artistas. Admiro cada um dos artistas que trabalham para grandes franquias, principalmente os brasileiros, porém sabemos da dificuldade em “sair da linha” dessas marcas engessadas. É óbvio que temos excessões, mas são raríssimas.

DAYTRIPPER, de Fábio Moon e Gabriel Bá é uma obra autoral. Levou o Eisner Award 2011 na categoria Melhor Série Limitada e fechou um belo ciclo para eles como autores. Estão na melhor fase de suas carreiras, não só como autores nacionais, mas mundiais – a obra já tem propostas para ser publicada no mundo inteiro. DAYTRIPPER conta a história de Brás Oliveira Domingues, um jornalista brasileiro, filho de um famoso escritor. Cheio de crises na carreira, no amor, nas amizades, Brás é um cara mais do que comum. A história percorre toda a vida e mortes (?) de Brás e todo capítulo surpreende. A obra foi originalmente publicada nos EUA, para leitores americanos, que a princípio “só gostam de super-heróis” e são fechados para outras culturas, dizem por aí. Mas o grande ponto é que DAYTRIPPER, antes de tudo, é uma HQ também. Tem história, textos e desenhos, igual às HQs de super heróis. Porém o conceito da narrativa e o texto dessa obra propoem algo totalmente novo, sem falar no traço maravilhoso do Fábio e isso nenhum amante de HQ resiste. Até os fãs de super heróis se dobraram, pois se identificaram muito mais com o Brás do que com o Clark. O Fábio e o Gabriel já trabalharam – e vão continuar trabalhando – com outros autores, em projetos que não são 100% deles, porém agora a diferença é o que faz deles completos, a sua obra genuinamente autoral. O prêmio é apenas mais um dos elogios que os dois vêm recebendo desde o lançamento de DAYTRIPPER, e com certeza ainda tem muitos elogios para receber, inclusive do público brasileiro, pois DAYTRIPPER será publicado no Brasil esse mês, com lançamento dia 28 de Agosto, na Saraiva do Shopping Ibirapuera, em São Paulo.

AMERICAN VAMPIRE, de Scott Snyder e Rafael Albuquerque – e participação de Stephen King – é uma obra autoral. Levou o Eisner Award 2011 na categoria Melhor Nova Série e ornamentou a aposta da Vertigo Comics em novos talentos. Novo, mais ou menos. Rafael Albuquerque trabalha com quadrinhos há anos, já desenhou franquias como Besouro Azul, Superman e Batman, da DC Comics e X-Force, da Marvel Comics, entre outros. Vêm se destacando desde seus primeiros trabalhos, porém será lembrado nos próximos anos por AMERICAN VAMPIRE, obra da qual é co-criador. AV conta a história da evolução dos vampiros através da história dos Estados Unidos, propondo uma nova raça americana, com novos poderes e características. Outra obra autoral propondo algo novo. Até ser convidado para estrelar sua arte na série de vampiros, Albuquerque mantinha seu traço a favor dos super heróis – com excessão de POWER TRIO, projeto independente e autoral que compartilhou com o Mateus Santolouco e Eduardo Medeiros. Albuquerque sempre foi considerado uma das grandes promessas no mercado americado de hqs e finalmente surpreendeu a todos em AMERICAN VAMPIRE. As primeiras cinco edições de AV apresentam duas histórias diferentes – uma escrita por Snyder e outra pelo famoso romacista de horror Stephen King. Ambas são desenhadas por Albuquerque em estilos diferentes, que também mostra novidade, experimentando facetas diversas do seu mesmo estilo, aplicando ferramentes visuais como o design de páginas e letras, soltando seu traço em belíssimas pinceladas e aguadas. É admirável e inspirador como Albuquerque conseguiu elevar sua arte através desses experimentos, tornando-se um dos maiores artistas de sua geração. De novo, não só no Brasil, mas no mundo. AMERICAN VAMPIRE já foi publicado no Brasil em capítulos mensais na revista VERTIGO da editora Panini. Uma mente inteligente na Panini devia lançar uma compilação em uma edição única e especial para o prazer de todos nós.

Fãs de personagens de HQ procuram personagens de HQ, não importa os artistas que os produzem. Artistas de HQ e amantes da mídia em si procuram artistas de HQ e se esses tiverem um trabalho autoral, sabemos que é ali que vamos encontrar a complexidade de sua obra, o artista por completo.

Um abraço,

R. Grampá

PS: Fiquem de olho em alguns dos grandes novos talentos brasileiros: Gustavo DuarteMateus SantoloucoMarcelo BragaDanilo Beyruth ( já consagrado no Brasil), Pedro Franz e Eduardo Medeiros – esse último, o melhor cartunista brasileiro de humor da atualidade.

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