Texto escrito por Silvana Chaves, no Comunique-se

“Eu não gosto de montanha-russa, o brinquedo, mas gosto de montanha-russa, a vida.” A frase, extraída da crônica “Felizes para sempre”, da obra Montanha Russa, um dos livros da escritora Martha Medeiros, dá uma ideia da relação dessa gaúcha, que completou 50 anos no sábado (20/8), com as palavras. Publicitária de profissão e colunista dos jornais Zero Hora e O Globo, por amor, a sua mais recente reflexão é o livro Feliz por Nada, lançado neste mês.

Em entrevista ao Gente que se comunica, o canal de entrevistas do Portal Comunique-se, é possível conhecer um pouco mais a respeito de Martha, que ciranda com a literatura e nos mostra como prezar as coisas simples, porém profundas da vida.

Você sempre foi ligada à leitura?
Sempre fui ligada à leitura, mas sem fanatismo. Na verdade, era ligada em todas as manifestações artísticas: cinema, teatro e especialmente em música, tanto que costumo dizer que não foram apenas os escritores que estimularam o meu amor pelas palavras, mas também artistas como Chico Buarque, Caetano, Rita Lee, Gal Costa, Jorge Ben, Ney Matogrosso, Cazuza e tantos outros.

Como se deu a sua transição do mercado publicitário para a carreira de escritora?
Foi gradual. Trabalhei com publicidade durante 13 anos e paralelo a isso escrevia e publicava poemas. Até que o acaso mudou meu destino, fui morar no Chile acompanhando meu então marido, que havia sido convidado a trabalhar lá. Quando retornamos, publiquei alguns textos no jornal Zero Hora, a convite de um amigo jornalista, e voltei para a propaganda apenas como free lancer. Quando a crônica começou a me absorver de fato, abandonei a profissão de vez.

Trabalhando com publicidade ficava com o pensamento de “falta alguma coisa”?
Seria um exagero dizer que eu me sentia frustrada. O que acontecia é que, mesmo sendo prestigiada pelos colegas, eu não considerava meu trabalho bom, sentia que poderia contribuir bem mais fazendo outro tipo de texto, mas ainda não tinha ideia de que poderia ser por meio das crônicas de jornal. Sempre fui alucinada pelo Luis Fernando Veríssimo e achava uma petulância escrever num mesmo veículo que ele. Ainda acho, aliás.

Qual era a sua sensação depois de escrever cada um de seus livros?
Nunca acho que eles estão acabados, sempre penso que posso melhorá-los, mas tem uma hora que esse impulso de reescrever começa a comprometer o trabalho. É preciso colocar o ponto final e dizer a si mesmo “fiz o melhor que pude”, mesmo que não se esteja 100% satisfeito. Eu, ao menos, nunca estou, o que de certa forma é produtivo, faz a gente se esforçar cada vez mais.

Existe algum livro que marcou a sua vida?
Os livros de crônicas da Marina Colasanti lançados no início dos anos 80 foram fundamentais para minha formação como mulher e também como cronista, mesmo que na época eu não sonhasse em trabalhar com isso. Eu ficava fascinada com a comunicabilidade do texto dela e por suas ideias libertárias e renovadoras. Marina foi minha Simone de Beauvoir.

Gosta de ver seus textos divulgados na internet, seja em sites ou em ilustrações de vídeos pelo Youtube?
Não gosto, mas não perco o sono por causa disso. É incrível a quantidade de textos com autorias trocadas, parágrafos fora de lugar, finais melosos que foram enxertados, enfim, não existe vigilância nem cuidado em reproduzir fielmente os textos escolhidos. A internet é uma facilitadora em vários sentidos, não saberia mais viver sem ela, mas propicia esses equívocos. Preferiria ser lida apenas nos jornais e nos meus livros. Teria menos leitores, porém eles só receberiam versões originais, sem adulterações.

O que você pensa da ‘virtualização’ da vida, com as chamadas redes sociais? Porque você é uma pessoa mais reservada, voltada para a família…
Eu não tenho Facebook, Twitter e nem Orkut. Nada contra, apenas não tenho tempo nem paciência para tanto contato, já me sinto mais do que exposta com o meu trabalho, e o e-mail, mesmo já obsoleto, ainda me quebra o galho perfeitamente para me corresponder com amigos e resolver questões profissionais. Acho que todas as ferramentas que surgem são interessantes, quem pira são os usuários. Alguns perdem o controle das próprias vidas a fim de estarem sempre conectados.  Eu não sinto falta de estar evidenciando cada segundo do meu dia.
Mas vá saber, se eu não fosse cronista, não tivesse um espaço público para manifestar minha ideias, talvez estivesse nessa mesma batida. Sei lá. O fato é que gosto da vida reservada. Um pouquinho de mistério não faz mal a ninguém.

Normalmente, você escreve sobre as relações familiares e entre mulheres e homens. Como você enxerga o padrão de relacionamento hoje?
Na verdade, havia um padrão no passado, hoje não há mais. Já não podemos enquadrar as relações como se fossem todas iguais. Hoje existe todo tipo de família: com mãe e sem pai, com pai e sem mãe, com duas mães, dois pais, filhos de vários casamentos, famílias sem filhos, solteiros convictos, uniões interraciais, casais com profundas diferenças de idade. Enfim, diante dessa diversidade, fico otimista, acho que as pessoas estão procurando satisfazerem mais a si mesmas do que à sociedade.

Você consegue transitar entre os dramas femininos e da vida no geral. Em que ou quem você se inspira para escrever a respeito desses assuntos?
Exponho a minha visão particular sobre esses assuntos, baseada em situações que vivi ou que vi acontecerem com pessoas próximas a mim, mas é claro que tudo o que leio me alimenta, principalmente livros de filosofia e psicanálise. Sou totalmente leiga em ambos assuntos, mas uma fiel interessada, e esse interesse acaba me dando um suporte.

Seus livros costumam ter muito de si, uma espécie de alter ego?
Estou em tudo o que escrevo, com maior ou menor intensidade. Não me afasto do meu texto, ele não é algo distante de mim. A única vez em que me distanciei um pouco do meu “umbigo” foi quando escrevi o livro Tudo Que Eu Queria Te Dizer, em que criei 35 cartas fictícias escritas por personagens diversos: padre, idosa, prostituta, suicida, cega, enfim, pessoas com vivências que nunca experimentei. Foi uma aventura, um delicioso exercício de criação, mas ainda há cartas em que me percebo camuflada em meio às emoções daqueles protagonistas.

A Martha mulher, esposa e mãe é totalmente distinta da Martha escritora e comunicadora?
Não há distinção alguma, não me departamentalizo. E isso não me estressa, ao contrário, essa confluência de papéis me ajuda a ser mais íntegra em tudo o que faço.  Enquanto escrevo, sou mãe. Quando namoro, me inspiro. Quando converso com minhas filhas, sou também escritora. Entre amigas, reforço minha identidade. Trabalho em casa, num nicho da minha sala, sem portas me separando da movimentação do dia a dia. Não me protejo de nada, não crio um personagem para mim, sou a mesma em todas as situações.

Uma matéria veiculada em junho no Jornal Nacional, da Rede Globo, mostrou uma estudante de jornalismo, fluente no idioma inglês, disse que “depois de recusas em processos seletivos devido a uma redação ruim, que o diferencial para conseguir uma vaga de estágio era o português”.  O que você recomendaria a um estudante que quer cursar jornalismo?
Saber escrever direito é fundamental para jornalistas, óbvio, mas não só para eles, e sim para todos: funcionários públicos, top models, bancários, decoradores, fotógrafos. Um bilhete bem escrito, um e-mail, uma receita, tudo isso é um cartão de visita. O texto precisa ser limpo e claro. Não estou falando em dom, em talento, em criatividade, nada disso, estou falando da simplicidade de saber se expressar em bom português, nosso idioma. Já recebi e-mails de estudantes dizendo: “Eu ‘fasso’ jornalismo e…”. Um vexame. Ele poderia fazer nutrição, farmácia, engenharia, seria um vexame igual.

Sei que não é fácil. Até hoje escrevo com o dicionário e a gramática ao lado, e ainda assim cometo erros, todos cometem, mas não pode haver displicência quanto a isso. Escrever corretamente o nosso idioma é um respeito que se tem com os outros, com a nação e com a gente mesmo.

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