Vendi 5 mil livros sem nunca passar por uma livraria, diz autor de guia de NY (Foto: Editoria de Arte/G1)
Publicado originalmente em G1

 

Henry Bugalho e Denise Nappi moram em uma casa cheia de livros. São dezenas de caixas que guardam a tiragem independente que fizeram do seu “Guia Nova York para Mãos-de-Vaca”, vendido exclusivamente pela internet. Sempre que alguém compra um exemplar, são eles mesmos que vão até os correios e enviam a obra. “Nós que escrevemos, editamos, imprimimos e agora embalamos, vamos até os correios e enviamos para os compradores”, disse Bugalho, em entrevista ao G1. “Somos pau para toda obra.”

O guia de turismo com baixo orçamento foi escrito depois que o casal se mudou para Nova York, em 2006, e já vendeu mais de 5 mil exemplares sem nunca passar por uma livraria.

No começo, o trabalho, que surgiu como blog e foi editado em livro, era vendido em formato PDF e enviado pela internet. “Oferecíamos também a alternativa de receber a versão impressa pelo site ‘Lulu’, que imprime exemplares individuais das obras e envia pelo correio”, disse Bugalho.

O escritor contou que pesquisava o comportamento do mercado editorial e sabia que nos Estados Unidos já existia a tradição de vender livros em formato PDF. “Dessa forma, conseguimos vender o livro com custo zero e lucro total. Não é fácil vender livro no Brasil. Não passamos por livrarias, mas o blog é a nossa vitrine, nosso canal de distribuição”, disse.

Segundo ele, o guia, que é vendido por R$ 27,90, hoje é a fonte de renda do casal, e o trabalho tem um retorno financeiro melhor de que o de best-sellers de grandes editoras. “Em termos de renda, vejo que quem vende 5 mil exemplares por uma editora não tem um retorno tão bom quanto o que nós temos com a venda independente. Mesmo que tentassem levar nosso guia para uma editora, não teríamos interesse. Não quero pagar a ninguém para fazer o que nós mesmos podemos fazer.”

Mudança e impressão
Foi só neste ano, depois de se mudarem dos EUA para Buenos Aires, que eles revisaram a obra e imprimiram pela primeira vez uma tiragem do guia, com 2 mil exemplares. Os livros foram levados para casa e passaram a ser vendidos pelo site e enviados pelos correios.

A decisão de imprimir uma tiragem se deu em busca de ter um trabalho mais bem finalizado, de ter lucros maiores e de fugir da pirataria dos PDFs, que podiam ser revendidos ou redistribuídos de forma fácil pela internet. “Chegamos a ver blogs anunciando nosso guia para vender por preços abaixo dos nossos. Calculamos que haja de 40 mil a 50 mil PDFs pirateados do nosso livro.”

O casal trocou Nova York por Buenos Aires em 2010 por causa do plano de expansão da divulgação de guias de turismo econômico. “Tínhamos quase 400 mil leitores no blog de Nova York, e decidimos expandir o trabalho”, disse. O guia passou a tratar de viagens baratas por todo o mundo, e a capital argentina deve ser tema do próximo guia a ser editado e vendido como livro até o fim deste ano. “Buenos Aires recebe 1,5 milhão de visitantes brasileiros todos os anos. Queremos atingir este público.”

Mesmo que tentassem levar nosso guia para uma editora, não teríamos interesse.”
Henry Bugalho“, autor do ‘Guia Nova York para Mãos-de-Vaca’

Apesar de todo o sucesso alcançado pelo guia de turismo, Bugalho diz se sentir frustrado por não ter conseguido emplacar comercialmente seus trabalhos de ficção. Autor de livros como “O Rei dos Judeus” e “O Covil dos Inocentes”, ele diz que não encontra um mercado tão favorável para essas obras. “Para ficção, não é tão bom ter venda independente. Quase ninguém se interessa. Seria bom ter uma editora ajudando a distribuir e promover estes livros”, diz.

Brasil preparado
Segundo Marisa Moura, fundadora da agência literária Página da Cultura, o mercado literário vem passando por mudanças, e o Brasil está preparado para publicações com distribuição independente. Para ela, a internet ajuda muito quem tenta fazer este trabalho.

“Até a entrada da internet, o mercado via que o editor, com faro do mercado, decidia o que seria publicado. As decisões eram centralizadas”, disse Moura, em entrevista ao G1. Segundo ela, isso mudou, e agora há livros que fazem sucesso sem o aval de nenhuma editora, enquanto muitas apostas editoriais acabam encalhando. “Saiu o poder das editoras de decidir o que dá certo. O poder hoje é do leitor, e o autor tem uma facilidade sem precedentes de tentar chegar ao leitor. O mercado está sem chão, sem seus pilares.”

Saiu o poder das editoras de decidir o que dá certo. O poder hoje é do leitor, e o autor tem uma facilidade sem precedentes de tentar chegar ao leitor.”
Marisa Moura, agente literária

Para Moura, um autor que consegue vender 5 mil exemplares do seu livro com distribuição independente não precisa se interessar por buscar uma editora. “O máximo que as editoras oferecem de direito autoral hoje em dia é 12% do preço de capa dos livros. Se o autor consegue vender ele mesmo e receber 70% ou mais do preço de capa, ele vai questionar se vale a pena ir para uma editora.”

A publicação independente, entretanto, difilcilmente consegue uma grande distribuição nacional por uma questão de logística. As livrarias estão acostumadas com um tipo de distribuição que não se adapta tão bem a produções independentes e títulos isolados. Os casos que funcionam normalmente requerem trabalho dos autores, como acontece no caso de Bugalho, que envia ele mesmo todos os livros vendidos.

“Para editar, publicar e distribuir a própria obra, o autor precisa saber se está realmente disposto a ter todo o trabalho. Ele tem que ter uma estrutura que vai além do trabalho de apenas pesquisa e redação do livro”, explicou Moura.

O lado negativo de tudo isso, segundo a agente literária, é que o trabalho detalhado em cima dos textos, a revisão, o cuidado com cada palavra, está acabando. “Por conta da corrida de ouro para publicar, e da ansiedade”, diz, tudo é feito sem o mesmo cuidado do passado.

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