Publicado no G1

Ganhador do Prêmio Jabuti, Laurentino Gomes tirou do jornalismo algumas técnicas que acredita terem ajudado seus livros de estreia a entrarem na lista dos mais vendidos do Brasil, alcançando juntos a marca de 1,2 milhão de exemplares. Autor de “1808” e “1822”, que tratam de momentos-chave da história do Brasil, ele diz que texto fácil, senso de oportunidade, capa cativante e marketing corpo a corpo tornam possível virar best-seller com o primeiro livro. “Uma obra com linguagem acessível chega a 1milhão de exemplares sem susto. Não é um número excessivamente ambicioso. É razoável”, disse, em entrevista ao G1.

Apesar de todo o otimismo, Gomes alega que não esperava que seu livro se tornasse tão popular. “É uma surpresa para mim que livros de história do Brasil possam se tornar best-sellers. Minha meta pessoal ao publicar “1808” era vender 20 mil livros. Até hoje me pergunto o que aconteceu.”

Desse questionamento, ele tirou as explicações que costuma dar quando fala sobre a “fórmula do best-seller”. “É essencial ter linguagem acessível e fácil de entender. É preciso ter uma boa fórmula de capa e título, para atrair o leitor, algo que até hoje é pouco explorado pelo mercado editorial brasileiro. É bom ter também o senso de oportunidade, aproveitar datas e grandes acontecimentos. E o contato com os leitores é importante”, disse.

Jornalismo e marketing
Membro da Academia Paranaense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, Gomes trabalhou como repórter e editor em jornais e revistas de grande porte no país. Dessa experiência, tirou as técnicas empregadas em seus livros.

A questão da capa, diz, trata-se de uma técnica jornalística tradicional. “Aprendemos que é preciso atrair o leitor pela capa, pelo título. E livros que queiram se tornar best-sellers têm que incorporar essa fórmula”, disse.

A explicação é semelhante no caso do “senso de oportunidade”. “Em jornalismo, isso é chamado de ‘gancho’. É aproveitar o interesse por um determinado assunto em um dado momento para oferecer livros que se encaixem no tema”. Como exemplo, ele explica que lançou “1808” em 2007, aproveitando que haveria o interesse no tema por conta dos 200 anos da vinda da família real portuguesa para o Brasil.

Depois de produzir a obra com a cabeça de jornalista, ele explica que vem o intenso trabalho de marketing. “Rodo o Brasil inteiro com a divulgação dos meus livros. Fui a 22 estados, fiz cerca de 350 palestras. Livro precisa de boca a boca. É como uma campanha eleitoral, corpo a corpo. Por isso estou sempre aberto a falar sobre o assunto, mesmo quando é para ouvir críticas”, disse.

Segundo ele, essa abertura é não apenas a críticos, mas a todos os leitores dos seus livros. “O contato com os leitores é importante. O leitor percebe que a obra está ligada à imagem do autor. Estou o tempo todo plugado nos meus leitores. Tento responder a todos os e-mails que recebo deles, e isso acaba tendo efeito no mercado. Dá muito trabalho, mas é muito prazeroso”, disse.

De porta em porta
Depois de vender mais de um milhão de livros, Gomes sabe que teria facilidade de lançar livros por qualquer editora do país. Ele explica, entretanto, que sua entrada no mercado não foi mais fácil para ele de que para outros autores iniciantes. “Fui bater na porta das editoras com meu projeto. A primeira delas recusou, mas logo na segunda, a Planeta, recebi um retorno positivo”, disse.

Gomes discorda da idéia de que é preciso ter indicação para lançar o primeiro livro. “É preciso ter um bom projeto, já ter trechos do livro prontos para servirem de exemplo de como vai ficar a obra e sair batendo de porta em porta apresentando e defendendo seu projeto. Não existe uma conspiração do mercado editorial contra novos autores. O problema é que muitos autores não sabem vender e descrever seus projetos. É preciso ter tudo muito bem pensado.”

Pensar no leitor
Para o diretor editorial da LeYa, Pascoal Soto, é possível um autor estreante se tornar um dos livros mais vendidos do Brasil.

O principal segredo, segundo ele, é bem simples, e segue linha parecida com a de Gomes: “É preciso dominar a língua, ter uma história significativa para contar e saber contá-la de forma acessível. Tem muito autor que não se preocupa com isso e escreve sem pensar no leitor. Para tentar se tornar um best-seller, o pretendente a escritor precisa pensar no leitor o tempo todo.”

A editora em que Soto trabalha é uma das responsáveis pelo sucesso recente do “Guia politicamente incorreto da história do Brasil” e do “Guia politicamente incorreto da América Latina”. Os dois livros receberam críticas negativas na mídia, especialmente sob o ponto de vista da pesquisa histórica e do tratamento dado ao tema. Segundo ele, a crítica é importante para a vendagem do livro, mas a forma como ela afeta o mercado não é tão direta. “Comemorei algumas críticas negativas ao livro. A crítica excita a curiosidade do leitor, e isso é muito bom.”

Segundo ele, o primeiro livro foi ignorado pela mídia até se tornar um best-seller mesmo sem ter destaque dessa forma. “No Brasil, um livro que vende 5 mil exemplares já pode ser considerado um best-seller. É possível alcançar esta marca sem depender da crítica ou da mídia.”

O caminho para o escritor estreante que quer estar na lista dos mais vendidos, segundo Soto, é o método tradicional de mandar projetos e livros prontos para serem analisados pelas editoras. Segundo ele, entretanto, vale a pena buscar apoio para o projeto, mostrar a amigos, escritores, jornalistas e críticos. “O que chega a uma editora sem indicação dificilmente vai adiante. Aqui, recebemos 100 projetos editoriais por mês. É muito difícil avaliar. Tentamos ver tudo, mas é complicado saber o potencial real desses projetos.”

Uma sugestão de Soto é que aspirantes a escritores estudem um pouco o mercado editorial, para conhecer a forma pela qual trabalham as editoras e saber exatamente quem procurar. “Vale procurar os editores para conversar, tentar entender as editoras e saber onde tentar lançar o livro.”

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