Em “Eu Não Vim Fazer um Discurso”, detalhes da vida e da relação do autor com a escrita e os amigos

Publicado originalmente na revista Exame

Wikimedia Commons

Gabriel García Márquez

A sexta edição vai homenagear o colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura e roteirista de vários longas-metragens

O escritor colombiano Gabriel García Márquez levou 19 anos concebendo “Cem Anos de Solidão”, antes de escrevê-lo. Quando, enfim, sentiu-se seguro com a ideia, passou um ano e meio trabalhando nela, digitando pacientemente na máquina de escrever, com os dois dedos indicadores.

Detalhes saborosos como esses, que falam da produção e da vida do vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, podem ser conferidos em “Eu Não Vim Fazer um Discurso”. Apesar de o título dizer o contrário, o livro traz, sim, uma compilação de falas do escritor, do período de 1944 a 2007. Nelas, o colombiano, de 84 anos, fala, entre outros temas, da sua relação com a escrita e com os amigos.

No pronunciamento que fez em março de 2007, durante um Congresso Internacional de Literatura, em Cartagena das Índias, na Colômbia, por exemplo, Márquez contou sobre a dificuldade pela qual passou antes de publicar o livro “Cem Anos de Solidão”. Sua mulher, Mercedes, foi quem sustentou a casa.

Num trecho do livro, conta: “(…) Nem sei como Mercedes fez, durante aqueles meses, para que não faltasse comida em casa nem um único dia. Tínhamos resistido às tentações dos empréstimos com juros até amarrarmos o coração e começarmos nossas primeiras incursões para empenhar coisas na caixa econômica”.

Não havia dinheiro sequer para enviar o manuscrito pelo correio. O escritor, então, enviou só metade. O editor, depois de lê-la, mandou dinheiro para que ele enviasse a outra.

Além abordar as dores e delícias da vida de escritor, os discursos de Márquez são marcados pelo seu posicionamento político. Em 1982, na cerimônia de entrega do Prêmio Nobel de Literatura, em Estocolmo, na Suécia, ele chamou a atenção para situação de seu país: “(…)Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e malandros, todos nós, criaturas daquela realidade desaforada, tivemos que pedir muito pouco à imaginação, porque para nós o maior desafio foi a insuficiência dos recursos convencionais para tornar nossa vida acreditável. Este é, amigos, o nó da nossa solidão.”

A fala de Márquez, marcada pela mesma eloquência com que escreve, também pontua a admiração pelos amigos. Num discurso feito em 1994, na Cidade do México, dez anos após a morte do escritor argentino Julio Cortázar, o autor contou como o temia e o invejava. Disse também que, em 1956, o viu num café em Paris.

O ídolo escrevia ininterruptamente e, mesmo quando fez menção de ir embora, Márquez não teve coragem de abordá-lo. Só foi conhecê-lo muitos anos depois (não se recorda o tempo), quando amigos em comum lhes apresentaram.

Mas o discurso mais emocionante do livro – e o mais bem-humorado – fica por conta de uma homenagem a outro amigo: Álvaro Mutis, de 88 anos. Na comemoração dos 70 anos de Mutis, que, aliás, sempre foi o primeiro leitor de seus originais, Márquez conta: “(…)Volta e meia me perguntam como é que esta amizade conseguiu prosperar nestes tempos tão malvados. A resposta é simples: Álvaro e eu nos vemos muito pouco, e só nos vemos para ser amigos.” E termina a fala declarando amor a Mutis. As informações são do Jornal da Tarde.

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