Texto escrito por Luiz Rebinski Junior no Digestivo Cultural

Não há castigo maior para um escritor do que ver sua própria personalidade se sobrepor aos seus livros e personagens. Esse foi o preço pago pelo norte-americano J. D. Salinger, que morreu no ano passado, ao ter se isolado do mundo quando seus livros eram bem maiores do que sua figura esquiva.

A reclusão de Salinger foi, pouco a pouco, ocupando o espaço que cabia à literatura. Com a recusa da escrita e do jogo literário, o mito da reclusão e o interesse dos leitores pela excentricidade do escritor ganharam força. E Salinger se tornou “o autor d’ O apanhador no campo de centeio” ou “o escritor americano que não dava entrevistas nem gostava de ser fotografado”. Algo no mínimo melancólico para um autor que queria desaparecer diante da literatura. Salinger fez de tudo para não ser notado, mas, como em uma espécie de maldição, quanto mais se escondia atrás de seus livros, mais indefeso ficava diante dos leitores.

A biografia Salinger: uma vida (Leya, 2011, 416 pág.), que a editora Leya acaba de publicar no Brasil, ajuda a entender um pouco a relação ambígua que Salinger teve com a sua própria arte e que culminou no seu isolamento a partir de 1953 em um ermo e isolado recanto no estado de New Hampshire, nos Estados Unidos. Escrita por Kenneth Slawenski, fã que mantinha um site sobre a vida e a obra de Salinger, a biografia não revela por que o escritor desistiu da literatura (se é que desistiu), mas traça um caminho interessante até uma possível explicação.

Salinger tinha um gênio irascível, desde pequeno. Rico, foi criado com todos os mimos pela mãe super protetora. Só rompeu o cordão umbilical quando já era adulto e, por pura falta do que fazer, foi parar nas trincheiras da Segunda Guerra Mundial. Assim como Dalton Trevisan, que “virou” escritor depois de um acidente que quase o matou na fábrica de seu pai, Salinger, depois do combate, adquire outra postura diante da vida. Salinger viveu o Dia D como poucos, e o desembarque na Normandia foi, literalmente, o seu Dia D. Salinger viveu histórias incríveis e se superou ao comandar centenas de homens ao longo de onze meses de combate. A guerra, por incrível que pareça, também lhe foi proveitosa no campo da literatura. E não apenas como matéria-prima para os contos que viria a escrever depois da guerra — alguns até mesmo durante as batalhas, com Salinger se isolando em um lugar seguro para batucar sua máquina. Além de marcar para sempre sua personalidade, a participação no combate lhe rendeu momentos memoráveis, como um encontro inusitado no front de batalha com Hemingway, que cobria o conflito como jornalista. É difícil pensar em Salinger tietando algum escritor, por mais brilhante que este seja, mas àquela altura, o autor de O apanhador no campo de centeio era apenas um pretenso escritor em busca de afirmação.

“Uma noite, durante uma trégua nos combates, Salinger virou-se para o seu companheiro soldado Werner Kleeman, um tradutor do 12º Regimento com quem fizera amizade quando treinava na Inglaterra. ‘Vamos lá’, apressou-o, ‘vamos ver Hemingway’. A visita durou duas ou três horas. Eles celebraram com champanhe tomado em canecas de alumínio, e Kleeman ouviu Salinger e Hemingway conversando sobre literatura. Foi um momento singular na floresta, que deixou Salinger reanimado e Kleeman impressionado”.

A participação de Salinger na Segunda Guerra Mundial certamente ajudou a empurrar o escritor para a reclusão, mas foi a religião budista que o guiou não só até Cornish, onde se escondeu durante décadas, mas ao tipo de literatura que iria realizar depois da publicação de O apanhador no campo de centeio, principalmente em alguns contos de Nove histórias e nas histórias da família Glass.

“Se Salinger experimentou ou não uma epifania espiritual por meio do The gospel of sri ramakrisna, é algo difícil de discernir a partir da sua atitude. Ele continuava deprimido e recolhido. Sofria de depressão havia anos, talvez desde bem jovem, e às vezes era afligido por episódios tão intensos que ficava incapaz de se relacionar com os outros. A ironia das freqüentes depressões de Salinger estava no fato de que em geral eram causadas pela solidão. A melancolia se apoderava dele e o afastava dos outros, aprofundando assim a própria solidão que a havia desencadeado”, escreve Slawenski.

Salinger expressou sua depressão em seus personagens, e essa dor pode ser sentida no desespero de Seymour Glass, na frustração de Holden Caulfield e no sofrimento do sargento X. No entanto, Salinger não foi o precursor daquilo que hoje conhecemos por autoficção, apesar das evidências e da tentativa de seus leitores em fazer conexões entre a vida privada do escritor e seus personagens. Em uma inversão da literatura autobiográfica, foi Salinger quem vestiu a roupa de seus personagens, e não o contrário.

“Quase numa imitação de seu personagem Buddy Glass, Salinger começou a aparecer em ambientes acadêmicos do Dartmouth College logo após o lançamento de Seymour, trabalhando horas na biblioteca da escola, com a aparência que se aproximava bastante da estética que literariamente se poderia atribuir a Buddy Glass. Por um breve momento deixou a barba crescer e vestia uma roupa rústica de brim e camisas xadrez de algodão, uma indumentária adequada tanto para cortar lenha como para um trabalho acadêmico”.

Seymour, uma introdução, sua última novela a aparecer em livro, é a exacerbação de sua fé e excentricidade. A leitura do livro de Slawenski sugere que Salinger e sua trajetória são fruto de vários fatores: o gênio irascível do autor, sua inerente misantropia, o envolvimento com a religião, sua participação na Segunda Guerra Mundial e um modo de trabalho ferrenhamente disciplinado, que envolvia horas e horas de escrita e total isolamento.

Tudo isso aparece no texto de Slawenski entrecortado por longos comentários sobre as histórias que Salinger escreveu. Um exercício de crítica que não combina muito com uma biografia. Detalhe que pode passar batido diante de histórias saborosas daquele que é o maior mistério da literatura do século XX.

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