Texto de Carol Knoploch publicado originalmente no O Globo

O frio é intenso, tempestades de neve são comuns, o ar é rarefeito; o terreno, hostil, com escaladas negativas ou em paredões de dar medo. Passa-se fome e sede. O esforço físico é extremo, algo para super homens, que têm de aguentar também a distância da família. O limite entre a vida e a morte é real e próximo. Lembrado a cada passo, a cada investida e quando se depara com corpos congelados que ficaram pelo caminho. Este turbilhão de sensações e sentimentos fez com que Rodrigo Raineri, que alcançou por duas vezes o ponto mais alto do planeta, o Monte Everest, com 8.844m de altitude, escrevesse uma carta de despedida para o filho. O texto foi entregue a um membro da expedição ao Aconcágua, na Argentina, em 2001, que, aliás, foi bem sucedida. Se ele morresse, o filho Rodrigo, hoje com 10 anos, receberia o texto. A carta (nesta página) é a abertura do livro “No teto do mundo”, sobre as façanhas de Raineri, escrito em parceria com o jornalista Diogo Schelp, da revista “Veja”.

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– Era como se fosse o Bope invadindo um morro. Podia não dar certo porque a face sul do Aconcágua não é brincadeira – compara Raineri – Meu filho ainda não tinha lido a carta. Viu no livro. Ficou feliz e disse que não imaginava que eu o amasse tanto – conta o alpinista, que levou o menino para escalar o Pão de Açúcar, no mês passado.

– Nada ficou de fora – garante Diogo, que também mata a curiosidade sobre tarefas do dia a dia no Everest.

Raineri discorda que seu esporte seja individualista, quando se refere aos familiares. Arriscar a vida longe deles.

– Quantas horas as pessoas trabalham diariamente, deixando de lado a família? E os riscos para motoboys, pilotos de avião? O alpinismo é meu esporte e minha profissão – afirma ele. – O mais difícil? Ficar longe do meu filho e da minha mulher. Se estivessem comigo na base da montanha, escalava o ano inteiro.

Os patrocínios de Raineri são apenas para as expedições. Não vive com salário mensal, mas conta com permutas que lhe permitem treinar durante o ano. Dá palestras, cursos, escreve sobre segurança e escalada, é contratado para expedições mundo afora… Hoje, tem uma empresa com 14 funcionários.

Sonho em explorar cavernas

Raineri chegou ao cume do Everest por duas vezes em quatro tentativas, sendo a última em 20 de maio deste ano. Seu objetivo era descer de paraglider, mas a neblina impediu, adiando o desafio para 2013.

– Também sonho explorar cavernas de gelo, no meio de um glaciário gigante. Seria como escalar dentro da terra. E medir as três maiores cachoeiras do Brasil, como fiz com a do Pai Nosso, no Amazonas (em 2001) – conta Raineri, que foi convidado a descer de rapel toda a extensão desta cachoeira e medi-la com precisão (353 metros). Este trabalho ganhou um capítulo do livro. – Para ser um projeto, tem de ter desafio. Não necessariamente difícil. Se não, faço no fim de semana. E tenho uma lista…

E é de perder de vista. Entre os sonhos, destacou escalar a Esfinge, no Peru, e a Table Mountain, na Cidade do Cabo.

– Não dá para fazer tudo em uma vida – constata Raineri, que chegou a ouvir da própria mãe uma pergunta inusitada. – Quando contei que queria ser alpinista, ela me perguntou para que servia isso… (risos). Acho que minhas histórias podem inspirar as pessoas nos seus desafios. Quem não me conhece me chama de doido. Mas sou um batalhador.

O alpinista, que faz expedições acima de 8 mil metros (chamada Zona da Morte) a cada dois anos, explica que até voltar às mesmas montanhas é sempre diferente.

– Além dos objetivos serem novos, a montanha está viva. A quantidade de neve muda, mesmo que se faça a mesma rota. A aventura é tudo, o percurso todo.

E nestes percursos, teve de se acostumar a ver corpos de colegas mortos. Em seu livro, cita cenas marcantes, como no caso dos brasileiros Othon Leonardo e Alexandre Oliveira, tragados, ao lado de Mozart Catão, por uma avalanche, na face sul do Aconcágua, em 1998.

– Isso sempre impressiona. É como ver mortos num acidente na estrada. Pior quando se conhece a família. Criei um bloqueio que me deixa continuar. Penso que, ao menos, morreram fazendo o que gostam.

Com o ex-companheiro Vitor Negrete, morto em 2006, na descida do Everest, conquistado por ele sem cilindro de oxigênio, foi pior. Rodrigo ainda se emociona ao falar sobre o assunto:

– Fiquei com raiva… Eu não podia mudar o que tinha acontecido. Tive de trabalhar isso e só depois que entendi, de coração, consegui viver de novo – declarou o alpinista, com a voz embargada, admitindo ter medo. – Não gosto desta palavra. Todos têm, claro. Mas é preciso tomar decisões. Com medo, a decisão vem do coração e a possibilidade de errar é maior. É preciso pensar com calma e decidir pelo menos perigoso. No Aconcágua, com o Vitor, não sabíamos se sairíamos vivos, mas tínhamos certeza que nossas decisões eram as melhores.

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