Publicado originalmente na Veja

Livro conta segredos chocantes da mademoiselle da moda durante a II Guerra

Coco Chanel, em foto de 1944 (AFP)

Coco Chanel, em foto de 1944 (AFP)

Para o mundo da moda, Gabrielle Chanel (1883-1971) era Coco, a estilista que revolucionou o mundo da moda no começo do século XX. Para o serviço de inteligência alemão (Abwehr), porém, ela era a agente nazista identificada pelo número F-7124. A mademoiselle chegou a financiar uma revista fascista editada por um dos amores de sua vida, o ilustrador Paul Iribe. De língua afiada, nunca teve pudores nas conversas entre amigos. “Só tenho medo dos judeus e dos chineses, e mais dos judeus do que dos chineses”, disse ela ao escritor francês Marcel Haedrich, autor de uma de suas biografias, que definia o antissemitismo da estilista como “veemente, antiquado e muitas vezes embaraçoso”. Mas é um novo livro sobre Coco, lançado na última sexta-feira no Brasil, que revela detalhes desse lado mais obscuro de sua vida.

Dormindo com o Inimigo – a guerra secreta de Coco Chanel, do jornalista Hal Vaughan, deixa o glamour da incomparável profissional da moda de lado para detalhar o comportamento dúbio e imoral em seu flerte com o nazismo durante a ocupação alemã na França, entre 1940 e 1944. Além de talentosa e criativa, Coco sempre foi uma mulher determinada, que sabia onde queria chegar e mais: o que fazer para alcançar seus objetivos. Nascida em uma família pobre no interior da França, teve uma infância difícil até ser levada, adolescente, a um orfanato de freiras, onde teve aulas de antissemitismo – em uma época na qual três quartos dos franceses detestavam os judeus (considerados os “assassinos de Cristo”). No começo da vida adulta, depois de passar por um bar onde cantava por alguns poucos trocados, começou sua escalada social ao ir viver no castelo do ex-oficial Étienne Balsan, o primeiro de seus muitos amantes. Com ele, descobriu a importância de se manter bons contatos e o poder que poderia alcançar seduzindo homens. Essas lições foram cruciais para o caminho escolhido por Coco durante a II Guerra Mundial.

Tempos de guerra – Não foi difícil para uma antissemita passar para o lado dos “futuros vencedores”, como acreditava ela, ao ver que os alemães estavam tão poderosos a ponto de tomar Paris. Oportunista diante do caos que se instaurou sobre a capital da França, Coco achou um homem para defendê-la, o alto espião do serviço secreto alemão, barão Hans Günter Dincklage, com quem viveu um longo romance. Foi Dincklage o responsável por envolve-la na inteligência alemã, com quem negociou uma constante troca de favores. Para libertar seu adorado sobrinho André Palasse, prisioneiro de guerra dos nazistas, por exemplo, Coco serviu como mediadora entre os alemães e as suas importantes conexões – que incluíam o então homem mais rico da Europa e ex-amante dela, duque de Westminster, e o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, Winston Churchill. Essa era sua principal função como agente: estender seus contatos pessoais ao regime. Por isso, era definida agente e não espiã, já que nunca chegou a investigar a vida de ninguém. Coco chegou a ser usada, inclusive, para uma tentativa frustrada de mediação de paz entre autoridades dissidentes de Adolf Hitler e Churchill na operação Modelhut (chapéu da moda, em alemão), em uma referência ao fato de ser uma estilista e confeccionar chapéus masculinos para mulheres.

Com o barão Dincklage, a primeira-dama da alta costura continuou a desfrutar uma vida de luxo enquanto os franceses reviravam o lixo nas ruas da cidade-luz para ter o que comer. Ela vivia no soberbo hotel Ritz, em Paris, onde ganhou como vizinhos de quarto inúmeras autoridades nazistas nos quatro anos de ocupação. Coco chegou a ir a Berlim com seu amado para conhecer o chefe da Abwehr, o general Walter Schellenberg. Além disso, aproveitou-se das leis nazistas para tentar, inutilmente, tirar a empresa de perfumes e cosméticos Chanel das mãos de seus sócios judeus, Pierre e Paul Wertheimer, que a ajudaram no início da carreira e lucraram milhões com suas fragrâncias. Como ela, muitos outros franceses cooperaram com a ocupação nazista em Paris. A maioria foi duramente punida após a libertação da França pelos aliados, em 1944. As mulheres que dormiram com os nazistas nessa época, chamadas de “colaboradoras horizontais”, foram arrastadas nuas para fora de suas casas, tiveram seus cabelos raspados, uma suástica pintada em suas cabeças e foram obrigadas a desfilar dessa forma pelas ruas da capital. Coco, porém, não sofreu um único arranhão. Foi poucas vezes obrigada a comparecer à Justiça para explicar suas relações com os alemães, sempre negando seu envolvimento com a inteligência nazista. Depois, mudou-se para a Suíça, só retornando ao seu país-natal em 1956. Tudo com a ajuda de seus poderosos contatos, é claro.

Livro – Em Dormindo com o Inimigo, o jornalista Hal Vaughan mostra a dupla identidade de Coco de uma maneira diferente, ora como admirador, ora como crítico. Mas ele não se limita apenas ao lado nazista da dama da moda francesa, e traz à tona também outras verdades pouco conhecidas sobre ela, como seu vício em morfina e os casos homossexuais – inclusive com modelos da Chanel. E mesmo desmascarando certos pontos da conduta de Coco, o autor não consegue disfarçar o admirador que é da inegável genialidade chaneliana. Afinal, Coco foi grandiosa demais para ser derrubada por suas fraquezas. O mito Chanel prevalece.

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