Publicado originalmente por Antero Gomes no Extra

 

Os livros encaixotados que foram doados pela ABL à Secretaria Municipal de Educação. Foto: Nina Lima

A história daria um conto: certo dia, a presidência da Academia Brasileira de Letras (ABL) recebe a ligação de um funcionário da Secretaria municipal de Educação. “Alô, a prefeitura gostaria de receber uma doação de livros para escolas da rede”, diz alguém do outro lado da linha. OK, sem problemas. Tudo acertado, as primeiras escolas buscam os seus pacotes na instituição, mas o processo é interrompido pelo município sem aviso. Em novo contato, desta vez por e-mail, a revelação: a prefeitura desiste de pegar os exemplares que restam, alegando — grosso modo — que já tinha livros em número suficiente.

 

Embora pareça plausível apenas no mundo da ficção, a historinha acima aconteceu de verdade. E este ano. Apesar de serem títulos pouco conhecidos, os livros recusados — que chegaram a ser empacotados e lacrados no depósito da ABL — foram escritos, entre outros, por autores famosos como José de Alencar, Euclides da Cunha, Moacir Scliar e Ferreira Gullar. Há também dicionários da Língua Portuguesa. Na ABL, a “desfeita” causou incômodo. Procurada, a academia confimou as negociações.

No bojo do programa “Rio, uma cidade de leitores”, somente este ano foram $pela prefeitura cerca de R$ 14 milhões na compra de diversos títulos, totalizando mais de 500 mil exemplares. Já o acordo inicial com a ABL era para o município receber 9 mil exemplares, que seriam distribuídos a 473 escolas da rede. A um custo médio de R$ 30 cada, a economia chegaria a R$ 270 mil.

“A Secretaria municipal $Educação esclarece que o processo de doação de livros, pela Academia Brasileira de Letras (ABL), foi interrompido após uma análise do material, na qual se constatou, entre outras coisas, que parte do acervo era de livros usados e em mau estado de conservação (…)”, informou a secretaria, por meio de nota, ao ser procurada pelo EXTRA para comentar o assunto.

A nota, porém, contradiz uma informação da própria Secretaria de Educação. Quando interrompeu o processo, em setembro deste ano (oito meses após o início das negociações), a alegação é de que havia sido feita uma avaliação pelas Coordenadorias Regionais de Educação, e estas entenderam ser desnecessário o recebimento de mais exemplares, devido $”impactos do vigoroso programa ‘Rio, uma cidade de Leitores’”.

O EXTRA teve acesso a alguns pacotes de livros que seriam encaminhados a uma das escolas beneficiadas. Os exemplares estavam em perfeito estado. Um desafio digno de um livro de suspense: os personagens são conhecidos, mas falta saber quais são os reais motivos.

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