Cecília Amado, neta de Jorge, leva às telas o romance Capitães da areia . A produção, que estreia na sexta-feira, retrata a vida dos menores de rua de Salvador.

Texto de Carol Braga publicado originalmente no UAI

Foto de Guy Gonçalves

Cecília Amado era uma aspirante a cineasta quando ouviu do avô uma confissão curiosa. “Ele me revelou que o sonho de juventude era ter sido diretor de cinema, e não escritor”, conta. Seria um saudosismo banal se não se tratasse de um dos maiores autores que o Brasil já teve: Jorge Amado. O desejo de juventude do baiano explica – e muito – o fascínio que as obras dele causam até hoje no cinema e TV, despertando o interesse dos profissionais da área.

Sexta-feira, estreia em pelo menos 120 salas de cinema do país a primeira adaptação nacional de Capitães da areia. A trama sobre Pedro Bala e a turma de meninos abandonados nas ruas de Salvador já foi contada na telona em 1971 pelo cineasta americano Hall Bartlett. Agora, em parceria com Hilton Lacerda (Baixio das bestas e Amarelo manga), Cecília assina não só o roteiro do longa, mas assume também a direção. “Fui fazer Capitães porque li o livro aos 14 anos e foi muito marcante para mim. Fui fiel ao meu avô. Mas ao Jorge que conheci. Ele já tinha um olhar muito mais amadurecido que quando escreveu o livro”, avisa.

Capitães da areia faz parte da fase comunista de Jorge Amado. Considerado subversivo, foi lançado em 1937, poucos meses antes do golpe para instauração do Estado Novo de Getúlio Vargas. “Os livros foram recolhidos de livrarias e bibliotecas. Foi feita uma grande fogueira em praça pública, em Salvador, com mais de mil exemplares de Jorge Amado. Capitães era o que tinha o maior número de cópias”, conta o professor da UFMG Eduardo de Assis Duarte, autor de Jorge Amado: romance em tempo de utopia.

Mesmo 74 anos depois de seu lançamento, Capitães da areia ainda é o livro mais vendido do escritor, tanto a edição padrão quanto a de bolso. Para Eduardo de Assis Duarte, as primeiras obras escritas por Jorge Amado, de tom mais militante, são as mais interessantes. “Depois ele cai numa espécie de crônica de costumes baianos, que fica meio repetitivo”, avalia.

No caso de Capitães da areia, o especialista acredita que parte do êxito se deve à identificação do público com a trama. “Ele toca fundo em um problema seríssimo da realidade brasileira: a crueldade com que o país trata suas crianças. Há uma empatia muito grande, porque essas crianças não são colocadas como vilãs. São vítimas de um sistema injusto”, completa.

Jorge Amado foi adaptado para o cinema 16 vezes, incluindo sucessos como Dona Flor e seus dois maridos, de Bruno Barreto – até o ano passado a produção nacional mais vista do país. Na televisão, as histórias dele foram contadas 14 vezes, com destaque a novelas como Tieta e Gabriela. Como lembra Eduardo, quando Jorge Amado coçava a cabeça, era o sinal de que alguma coisa não estava do jeito dele. Essa era a reação frequente quando o autor via seus personagens apropriados por outros criadores. Jorge nunca ficou muito contente com as adaptações que fizeram de suas obras.

Apesar disso, traduções para palcos e telas nunca pararam. O que explica tanto interesse? Cineasta recalcado, como revelou a neta, Jorge Amado sempre teve uma linguagem muito cinematográfica. “Ele foi um escritor identificado com a massa. Começou a escrever nos anos 1930, o momento da grande explosão do cinema no Brasil. Muitos livros já têm a estrutura de ação. Aliás, muito mais ação do que reflexão”, explica Eduardo.

Oficinas Cecília Amado dedicou mais de cinco anos à realização de sua versão para Capitães da areia. Todo o processo, segundo ela, foi marcado por paixão e lembranças. Assim como o autor nunca escondeu o encantamento por aqueles personagens, a diretora também reconhece que desde adolescente nutre especial atração pelos capitães da areia. Chegou até a conhecê-los pessoalmente. “O filme fala sobre a trajetória de um ano na vida dos capitães da areia. Deixam de ser criança e se tornam homens. É uma trajetória de amadurecimento que diz respeito a todo mundo. É um filme muito universal”, acredita.

A ideia de levar o romance para a tela surgiu depois que Cecília viu o ensaio de um grupo de teatro de adolescentes no Rio de Janeiro. Eles também planejavam contar as aventuras de Pedro Bala e seus amigos no palco. Na condição de espectadora, Cecília se deu conta de como aqueles personagens eram cinematográficos. Era, então, a hora de filmar e estrear na direção.

Com a experiência como assistente de direção de Cidade dos homens (2002), Cecília quis que seus capitães também fossem atores desconhecidos. Entrou em contato com ONGs e projetos sociais de Salvador e iniciou a dura seleção do elenco. Mil e duzentos jovens foram entrevistados e testados com exercícios de improvisação. Destes, 90 escolhidos participaram de uma oficina “Foram dois meses de observação diária. Foi muito difícil, porque esses 90 já eram a nata dos talentos. Por isso a gente diz que baiano não nasce, estreia”, brinca.

Antes de dar vida a Pedro Bala, Jean Luis Amorin tinha uma banda em Salvador. Além dele, completam o elenco dos capitães Ana Graciela, como Dora; Robério Lima é o Professor; Paulo Abade é o Gato; e o Sem Pernas é interpretado por Israel Gouvêa. O grupo, que antes não tinha experiência, foi fisgado pelas artes cênicas, o que resultou no coletivo Novos Capitães, com sede no Teatro Solar Boa Vista, em Salvador.

Para Cecília, Capitães da areia se comunica especialmente com os jovens, ao abordar a ânsia pela liberdade, que, no caso dos personagens, tem o abandono como contraponto. Diante de temas assim, é inevitável identificar forte dose de ideologia. Quando ela para e pensa nas próprias expectativas com a adaptação, não nega a herança: “É quase uma missão, como cineasta, trazer para as novas gerações o olhar generoso de Jorge Amado sobre seu povo”.

 

 

Que obra de Jorge Amado você gostaria de levar às telas?

 

“Adoraria poder adaptar Os velhos marinheiros ou o capitão de longo curso para o cinema. Acho um livro fascinante e extremamente cinematográfico por ter como personagem principal um contador de histórias que chega a uma pacata cidade e muda o cotidiano dos moradores.”

Eduardo Vaisman
diretor de 180º

 

“Sempre gostei de Teresa Batista cansada de guerra. Tem imagens muito fortes, a resiliência da personagem e as várias reviravoltas da história sempre me interessaram. Qualquer livro de Jorge
Amado pode virar um grande filme, dependendo de como
se filma.”

Gustavo Pizzi
diretor de Riscado

 

 “Além dos já adaptados Gabriela, cravo e canela, Dona Flor e A morte e a morte de Quincas Berro d’Água, imagino que seria muito bom adaptar Tocaia Grande, que daria um excelente ‘nordestern’.”

 Antônio Carlos da Fontoura
diretor de Gatão da meia-idade 

 

“Gostaria de adaptar para os tempos modernos a sua obra infantojuvenil O gato malhado e a andorinha Sinhá. Faria uma adaptação livre, lúdica e não realista de uma história de dois jovens hoje, na selva de pedra da grande cidade, de classes sociais distintas em que a menina rica teria asas (andorinha) e o rapaz pobre seria pardo e com um jeito felino e sensual.”

Toni Venturi
 diertor de Estamos juntos

 

 “Nunca pensei em filmar um livro do Jorge Amado, tenho uma certa tendência a abordar histórias que são mais próximas do meu cotidiano. Sempre tenho um olhar turista da Bahia, mas, se fosse escolher algum, refilmaria Gabriela.”

Marcus Baldini,
diretor de Bruna Surfistinha


Assista ao trailer do filme:

Comments

comentários

Powered by Facebook Comments