Rubem Alves diz que é emocionante concorrer ao Jabuti com Dalton Trevisan. “A Pedagogia dos Caracóis” disputa na categoria Contos e Cronicas.

Texto de Fernando Eduardo Pacífico publicado originalmente na EPTV

Usado como metáfora em uma das mais emblemáticas músicas cantadas por Caetano Veloso, o caracol volta à cena por meio de palavras fotografadas, como gosta de apresentar Rubem Alves. O escritor e morador de Campinas está entre os finalistas do 53º Prêmio Jabuti com o livro “A Pedagogia dos Caracóis”, formado por crônicas independentes. “É emocionante chegar à final e ter um nome como o dele na concorrência, até porque não planejei nada”. Ao dizer “dele”, o mineiro de Boa Esperança refere-se ao escritor curitibano Dalton Trevisan, que também concorre ao prêmio na categoria Contos e Crônicas.

Apegando-se à ideia de travessia proposta por Guimarães Rosa, o escritor explica que os textos da obra são permeados pela valorização da expressão “virtude da vagareza” – palavras que combinam com o movimento do famigerado animal. O intuito é exprimir que o processo educativo deve ser mais trabalhado do que o foco no resultado.

“Falta leveza na educação e um espaço para que as crianças possam exercitar o olhar e assombro diante do mundo, justamente pela correria e pressão”, pondera. Uma das crônicas propõe justamente a presença de um educador que modifica o processo pedagógico ao avistar um molusco do gênero. “O vestibular é uma tormenta e a expressão ‘grade curricular’ é obscena”, opina.

Sem conseguir mensurar o tempo que levou para escrever as 95 páginas do livro, Alves cita Nietzsche para explicar à reportagem do EP Campinas as características da linguagem empregada no trabalho.“As crônicas são resultados do trabalho com as imagens. Gosto de escrever ‘com sangue’, de querer compartilhar com o leitor”. O autor valoriza ainda a influência do haikai, forma poética de origem japonesa. “Somente os machados e serras são apressados”, brinca.

Sobre as diversas inspirações que repercutiram na criação de “A Pedagogia dos Caracóis” (Verus Editora, R$24,90), o escritor cita momentos da própria infância. “Fui muito pobre, morava em uma casa de pau-a-pique e me lembro somente de felicidade. Hoje as crianças sofrem muito e falta uma reeducação de espírito aos professores”.

Pai de três filhos, o autor de 78 anos deleita-se para falar da passagem que o impulsionou a dedicar parte da carreira aos livros infantis. “Houve uma noite em que minha filha, então com dois anos, me acordou às seis horas com medo. Ela me perguntou: ‘Papai, quando você morrer, vai sentir saudades? Fiquei perplexo. Ela respondeu: ‘Não chore, pois vou abraçar você”, descreve emocionado. Desde então, o mineiro escreveu mais de 100 livros. Pelo menos 35 são para crianças. Em 2009, o escritor conquistou o 2º lugar no Prêmio Jabuti com “Ostra feliz não faz pérola”.

Ilustração coloca outro livro de Alves na final

Rubem Alves ainda não sabia, mas as ilustrações de “Quer que eu lhe conte uma estória?” (Papirus Editora), também assinado por ele, classificou a campineira Karen Cornacchiana para a final do Prêmio Jabuti na categoria Ilustração. “Não sabia, que surpresa boa! Fico feliz, pois elas (ilustrações) ficaram extremamente delicadas”, entusiasmou-se

A iustradora de 46 anos é formada em Arquitetura e Urbanismo pela PUC-Campinas e trabalhou durante 12 meses na criação de 32 ilustrações para o livro. Usou 12. O objetivo era dar continuidade ao estilo da escrita do mineiro. “Procurei adequar os traços ao estilo sutil dos textos, sem deixar de criar um espaço próprio”, explicou.

Há seis anos trabalhando com ilustrações voltadas para livros infantis, com destaque para livros de Nye Ribeiro. Quando a editora me contou, pensei que era engano… É uma vitória. Se conseguir ficar entre os três primeiros será o melhor momento da carreira”.

Outros dois campineiros disputam a fase final do Jabuti, na categoria Teoria e Crítica Literária: Marcos Siscar, com “Poesia e Crise: Ensaios Sobre a ‘Crise da Poesia’ como Topos da Modernidade” (Editora Unicamp); e Ivan Teixeira, com “O Altar & O Trono: Dinâmica do Poder em o Alienista” (Editora Unicamp / Ateliê Editora).

A segunda fase do 53° Prêmio Jabuti ocorre dia 17 de outubro, na Câmara Brasileira do Livro. Outras informações podem ser conferidas no site oficial.

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