Chegou hoje às livrarias britânicas a autobiografia da pintora Kim Noble. O livro, na verdade, está longe de ser uma autobiografia padrão, já que a própria Kim não se lembra de muita coisa de sua vida. Kim é o corpo – ou um nome na certidão de nascimento – que abriga mais de 100 personalidades. Ela sofre de um transtorno psiquiátrico chamado dissociativo, mais conhecido na linguagem popular como “múltiplas personalidades”. Kim ficou famosa na Inglaterra há alguns anos, quando suas personalidades começaram a pintar quadros como forma de revelar seus traumas e aflições. O caso de Kim repercutiu até nos Estados Unidos, onde ela deu uma entrevista à Oprah Winfrey no ano passado. Agora, mais de dez anos depois de muita terapia para conciliar todos os perfis que habitam a mente de Kim, ela conseguiu reunir seus fragmentos de memória para tecer sua própria história no livro “All of Me: My Incredible Story of How I Learned to Live with the Many Personalities Sharing My Body”. Um livro para contar a história de tanta gente não poderia ter um nome menor. Na tradução para o português seria algo do tipo: Tudo sobre mim – minha incrível história de como aprendi a conviver com as múltiplas personalidades que compartilham o meu corpo).

Os medicos e terapeutas que atendem Kim acreditam que o transtorno dissociativo tenha sido causado pelos sucessivos abusos que ela sofreu na infância. Seus pais eram operários e Kim era freqüentemente deixada com pessoas desconhecidas. Sua mente teria se fragmentado para se proteger do trauma do abuso. Muitas das personalidades não se lembram das violências, outras, como Ria Pratt, uma menina de 12 anos, retratam cenas chocantes por meio das pinturas. Patrícia, atualmente o perfil dominante, diz ser feliz porque não lembra dos abusos. É Patrícia quem está no comando de Kim na maior parte do dia. É ela quem cuida de Aimee, a filha de 14 anos de Kim. Mas, na hora das refeições, quem aparece é Judy. A personalidade de 15 anos se acredita gorda e tem problemas para comer. Dentro de Kim vivem até homens. Um deles é Ken, de 21 anos, gay.

Cada um dos perfis de Kim não tem conhecimento da existência dos outros – com exceção de Patrícia, que aceita ter o transtorno dissociativo. Mas isso não significa que ela se lembre do que acontece quando é outro perfil que está no comando. Isso pode causar uma série de problemas a Kim: uma personalidade pode mudar o celular de lugar e a outra não irá encontrá-lo, uma marca consulta com um médico, mas a que está no comando no horário do compromisso não sabe que tem uma consulta. Kim diz que já deixou bilhetes pela casa com recados para as personalidades. Mas frequentemente encontra respostas do tipo “Cuide de sua própria vida”. Kim, ou melhor, Patrícia, que é quem falar por ela boa parte do tempo, diz que as trocas de personalidade acontecem de três a quatro vezes por dia.

A história de Kim foi marcada por sucessivas internações em hospitais psiquiátricos. Ela só recebeu o diagnóstico de transtorno dissociativo quando tinha 34 anos. A notícia, conta, foi um alívio. Ela já havia recebido tratamento para depressão, esquizofrenia e alguns outros transtornos dos manuais de psiquiatria. Desde que começou a tratar as múltiplas personalidades, não passou por nenhuma internação e parou de tomar remédios. Ela diz que a terapia foi fundamental para aprender a conciliar os múltiplos perfis. Para agendar horários e entrar em contato com a terapeuta, cada personalidade tem sua própria conta de e-mail com uma senha.

Mesmo em meio a essa confusão de perfis, Kim encontrou forças para lutar pela guarda da filha, retirada pela Justiça assim que Aimee nasceu. Ela foi devolvida seis meses depois. A Justiça achava que Kim que não teria condições de criar uma criança. Quem deu a luz à Aimee foi a personalidade Dawn, que ficou traumatizada com a perda da guarda e continua “vivendo” no ano do nascimento de Aimee, 1997, em busca da filha. Ela acha que a Aimee, hoje uma adolescente de 14 anos, é filha de uma amiga. Quando Aimee era criança, foi Hayley, uma super mãe, que se tornou a personalidade dominante naquela época.

Imaginem o que deve ter sido para Aimee crescer com tantas mães! Ela diz estar perfeitamente acostumada e conhece melhor do que ninguém cada uma das personalidades. Kim diz que tem certeza de que nenhum de seus perfis seria capaz de fazer a mal à sua filha porque eles apareceram justamente como uma forma de proteção durante a infância de Kim.

Marcela Buscato é editora de ÉPOCA em São Paulo.

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