Clarissa Corrêa, na TPM

Desde pequena me sinto diferente das outras pessoas. Não que eu tenha um dom especial, poderes sobrenaturais ou seja irmã gêmea do gênio da lâmpada. Não tenho nada que chame a atenção, pelo contrário: minhas feições são normais. Não tenho nariz grande nem bocão nem olho azul lindo de morrer. O que se destaca em mim são as sardas. Muitas sardas.

Lá na infância tive diversos apelidos. Sardenta. Pimentinha. Pintada. Enferrujada. Ferrugem. Detestava. Odiava quando a professora dizia “a sardentinha aqui da frente”. Eu tinha nome, poxa. Eu era gente, poxa. Eu não queria ser diferente, poxa. Então eu cresci. Passei a gostar das sardas. Passei a gostar de não ter um rosto igual a todo mundo. Demorou, mas entendi que é bom ser diferente. E passei a aceitar minhas pintinhas.

Percebi que o “diferente” não eram pintas a mais no meu rosto. O diferente estava na forma de sentir, de ver a vida, de encarar as coisas. Tenho uma sensibilidade incrível. As coisas me atingem de uma forma tremenda. As pessoas que eu amo me importam muito. Por elas faço o possível e o impossível. Mesmo que me doa. Mesmo que tenha que abrir mão de coisas. Mesmo que precise fazer sacrifícios.

Procuro deixar culpas para trás. Durante muito tempo me cobrei demais. Meu exercício diário é tentar relaxar, soltar os ombros. Quem me conhece sabe que não relaxo nunca. Vivo tensa, vivo querendo que tudo caminhe bem, dê certo, quero controlar tudo e muitas vezes perco o controle da minha própria vida. É difícil não conseguir respirar fundo e aliviar a mente.

Meu pensamento trabalha o tempo todo, sem intervalo comercial e feriado. Quando deito na cama já começo a pensar em tudo que preciso fazer no dia seguinte. Faço diversas listas mentais. Tenho um bloco de notas dentro do cérebro. Por isso, estou tentando colocar em prática novas medidas. Me estressar menos. Me importar com o que merece real importância. Gastar energia no que eu acho que vale a pena. Não dar bola para coisas pequenas. Não deixar energias sujas me atingirem. Tem muita gente com energia ruim que fica tentando sugar nossa paz. Parece simples e básico, mas não é. Procuro lembrar disso diariamente: gasta energia no que realmente vale a pena e merece.

Quem escreve está exposto. Está aberto a receber coisas negativas e positivas. Eu, durante esses anos todos que escrevo, graças a Deus, recebo somente bons retornos. E me orgulho disso. Críticas são sempre bem-vindas, desde que venham com respeito. Aquela gente que chega dizendo que tal coisa é uma bosta, que mete o pé na jaca e que sai detonando eu nem considero. Me chateia, sim. Fico triste por perceber que existe gente que não sabe se portar e acha que é bacana destruir o outro. Mas é a vida. De vez em quando acontece. De vez em quando aparece gente assim pelo caminho. E faz parte. Fico chateada por um dia, depois passa. Procuro guardar o que é bom, o que faz bem.

A gente deve levar sentimentos bons dentro da gente. E distribuir boas coisas para os outros. Seja um sorriso, um abraço, uma palavra, uma mensagem no celular. Faz um bem danado. Para o outro e para a gente. As pessoas andam tão preocupadas com seus afazeres diários que acabam esquecendo de coisas simples. Um piquenique no parque, um passeio de bicicleta, uma música legal, uma taça de vinho, um por do sol, um passeio na chuva. Piegas, não? Mas as melhores coisas da vida são piegas.

O amor, por exemplo, é a coisa mais piegas que existe. E é o que mais nos enche de alegria e satisfação. É o que nos dá força para viver. Eu disse que sempre fui diferente. Acredito, sim, que o amor é prioridade. Pode ser coisa do signo, dizem que librianos são assim. Pode ser por outros motivos, sei lá. Mas não vou tentar achar um culpado para a minha pieguice. Eu me assumo: sentimentos existem para serem vividos. Até o último gole.

Redatora publicitária e escritora, Clarissa Corrêa é a + nova contratada da Editora Gutenberg.

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