Texto escrito por Fabrício Carpinejar no Zero Hora

São Lourenço do Sul é o tema de hoje da série Beleza Interior

Casados há cinco décadas, Álida e Arno só conversam em idioma pomerano

Casados há cinco décadas, Álida e Arno só conversam em idioma pomerano

Um olhar diferenciado sobre costumes e peculiaridades gaúchos é a proposta da série Beleza Interior, que vai percorrer um destino diferente do Rio Grande do Sul todos os sábados de 2011. A cidade visitada na edição de hoje é São Lourenço do Sul, que mantém viva a tradição e a cultura da Pomerânia.

Pomerânia não está pintada de azul no mapa mundi.

Era um país eslavo, na fronteira entre a Alemanha e a Polônia, reduzido a ducado no século 11, apequenado em província no século 18 e que deixou de existir de vez com o fim da II Guerra Mundial, em 1945 (85% do território foi incorporado pelos poloneses e 15% acabou sob domínio dos alemães). Mas seu idioma áspero ainda é falado no Rio Grande do Sul.

Em São Lourenço do Sul, cidade de 43 mil habitantes, a 195 quilômetros da Capital, famílias mantêm viva a língua de uma região extinta. Para não sofrer boicote, as lojas são condicionadas a contratar funcionários que respeitem a tradição.

O agricultor Arno Bubolz, 76 anos, defende a bandeira com unhas, dentes e enxada. Bisneto de um dos primeiros imigrantes da Pomerânia a desembarcar no Rio Grande do Sul (Fritz desceu no Porto da Lagoa dos Patos, em 1868), não abre mão da origem. Conversa exclusivamente em pomerano com os parentes.

– É o nosso código de amor – afirma Álida Bubolz, 74 anos, sua mulher há cinco décadas.

– Ela me diz cada coisa no ouvido que apenas eu entendo e não posso traduzir – reage Arno.

– Meu marido adora xingar no idioma dos avós. Mas não xinga de ruim, para amaldiçoar, xinga de faceiro, de orgulho – completa Álida.

De largo chapéu de palha e inseparáveis tamancos, Arno é simpatia pura. Álida aproveita a vulnerabilidade de seu riso para beliscar as faces rosadas.

– Até seu beijo é pomerano. Ele transmite sua felicidade pelos lábios – confidencia a esposa.

– Temos uma paixão pelo som. Em vez dos olhos, observamos a boca para ver se a pessoa está mentindo – argumenta Arno.

O dialeto tem uma pronúncia semelhante ao alemão. Resiste apenas como língua oral no Estado, sem representações por escrito.

– Fui entender português tardiamente, aos sete anos, na escola – esclarece Hilmar, 46 anos, um dos seis filhos do casal.

Ao longo das bodas de ouro, o par honrou os rituais dos antepassados da costa do Mar Báltico. Preservou hábitos diferentes, a princípio estranhos para seus vizinhos gaudérios. Um deles é o vestido negro da noiva.

– Matrimônio é luto para mulher. Significa abdicar da proteção dos pais – explica Arno.

O casório é permeado de regras especiais. Não é permitido convite impresso. A cultura estabelece a figura do convidador: um padrinho – de preferência de fígado forte – que visita a comunidade convocando os amigos para a festa. Ele é obrigado a beber um gole de maischnaps, cachaça típica feita com 32 ervas, em cada residência.

– Certo que volta embriagado da missão, e não lembra quem realmente convidou. Depois a cerimônia enche de penetras – ri Arno.

Outro ritual é colocar o primogênito de castigo na hipótese de o caçula casar antes.

– São castigos divertidos. O filho encalhado é condenado a passar uma tarde inteira sentado no fogão, para aprender a não ser mais bobo – pontua Hilmar.

Arno e Álida já são os professores de pomerano dos 13 netos, criançada que lota todo o galpão da fazenda na Estrada da Divisa.

– Não seremos o último capítulo do idioma. O livro não termina com o fim.

The End. Ou, para os íntimos dos antigos celtas, Yho.

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