Publicado originalmente no RTP

Pouco conhecida em Portugal, mas celebrada no meio académico brasileiro, a escritora portuguesa Maria Gabriela Llansol, falecida em 2008, será esta semana objeto de diversos debates que marcam a chegada de três livros ao Brasil.

“Conheci pela primeira vez a obra de Llansol em 1992, quando ela era uma escritora bastante reclusa, bastante desconhecida, até mesmo em Portugal”, disse à agência Lusa a académica Lúcia Castello Branco.

Professora de Literatura Portuguesa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Lúcia Castello Branco é responsável pela primeira publicação da autora no mercado brasileiro.

No próximo fim de semana, chegarão às livrarias brasileiras a trilogia de diários: “Um Falcão no Punho” (1985), “Finita” (1987) e “Inquérito às Quatro Confidências” (1996), todos pela Editora Autêntica.

O primeiro encontro entre a pesquisadora e a escritora deu-se em Portugal, quando a professora brasileira cumpria um estágio de pós-doutoramento, com uma pesquisa relacionada com a mística do século XVIII.

“Fiquei completamente impactada após ler `Um beijo dado mais tarde`, então troquei o projeto todo e criei um novo, de entrevistas com autoras contemporâneas, só para chegar até ela”, relembra Lúcia Castello Branco, que participa hoje num seminário sobre a obra de Llansol na Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói, região metropolitana do Rio de Janeiro.

Ao todo, já são mais de 20 teses e dissertações de mestrado e doutorado sobre a obra de Llansol no Brasil, boa parte delas comandada por Lúcia Castello, que realizou durante o projeto de pós-doutoramento uma longa série de entrevistas, que agora estão a ser lançadas em conjunto com os diários editados pela Editora Autêntica.

“São mais de 20 teses de dissertações ao longo desses quase 20 anos. Nem um autor brasileiro tem esse tipo de “ibope [no sentido de popularidade]” dentro da universidade [UFMG] e tudo isso aconteceu com esses livros chegando aqui importados, caríssimos”, sublinha.

Após duas tentativas fracassadas de lançar a obra de Llansol no Brasil, a própria escritora autorizou, antes da morte, que os seus livros circulassem entre os alunos da universidade por meio de fotocópias.

“Deixemos os livros circularem em cópias. Os livros saberão a hora de ser publicados”, declarou então Llansol à sua pesquisadora.

Lúcia Castello Branco conta que chegou a trazer mais de 16 quilos de livros da autora para os seus alunos, quando viajava para Portugal.

Sobre o interesse especial do público brasileiro, a especialista acredita que o estilo “vivo”, que renega a melancolia tradicional dos romances, pode ser uma das principais causas de atração.

“Acho que a saída dessa tradição melancólica, presente principalmente do romance português, apostando no ´vivo´, tudo isso acaba a soar no Brasil de uma forma diferente do que soa em Portugal”, observou.

“Aqui no Brasil, desde o Manifesto Antropofágico do Oswald de Andrade [manifesto que marca o início do Movimento Modernista brasileiro, na década de 1920], a gente já tem aprendido que a alegria é a prova dos nove, não é de melancolia que se trata”, acrescenta.

Esta semana a obra de Maria Gabriela Llansol será relembrada em diversos seminários e colóquios de universidades brasileiras, sendo os dois principais na Universidade Federal Fluminense (UFF, Niterói), nesta terça-feira, e na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG, Belo Horizonte), na próxima quinta-feira.

O lançamento oficial dos três primeiros volumes da escritora portuguesa em edição brasileira acontece em Belo Horizonte, Minas Gerais, no dia 22 de outubro.

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