Publicado originalmente no odiario.com

Os titãs da rede

Os titãs da rede

A literatura nunca esteve tão próxima das pessoas quanto agora, com o uso das redes sociais. No Facebook, Twitter ou no quase-extinto Orkut, Fernando Pessoa, William Shakespeare, Clarice Lispector, Jorge Luis Borges e Caio Fernando Abreu são figurinhas fáceis. Às vezes fáceis até demais, porque nem sempre os textos postados são obra dos escritores citados.

Sites voltados só para citações inundam a rede com os mais diversos pensamentos de autores conhecidos ou desconhecidos. E então, compreender toda uma obra se resume a uma frase de impacto.

“A falsa atribuição parece ser mais fácil do que procurar as verdadeiras fontes. É a literatura se contorcendo para sobreviver no espaço cibernético”, diz o mestrando em estudos literários da UEM (Universidade Estadual de Maringá) Luis Cláudio Ferreira Silva, 29.

“Há uma moda, e isso me incomoda muito, de pegar qualquer frase motivacional e atribuí-la, nas redes sociais, a um escritor célebre.” Machado de Assis, Clarice Lispector e José Saramago estão entre as vítimas das más atribuições de créditos.

“Daria uma boa história para um Brás Cubas mais moderno, afinal Machado de Assis é um desses que sofrem com alterações póstumas”, diz Ferreira Silva.

A estudante Priscilla Dias, 18, é adepta do uso de frases antes mesmo da ascensão das redes sociais. “Antes, eu tinha um caderninho onde anotava todas as frases de que gostava. Agora, com a internet, a gente acaba esquecendo um pouco o caderno”, diz.

Ela segue um dos perfis do falecido escritor gaúcho Caio Fernando Abreu no Twitter, e constantemente compartilha as frases com seus contatos. “Eu acho bonito”, justifica. A estudante não sabe precisar o primeiro contato com os fragmentos da obra de Fernando Abreu, mas desde então as frases de efeito acompanham o seu cotidiano.

Questionada se conhece alguma obra do autor, a resposta é rápida e seguida de justificativa. “Nunca li, mas tenho vontade. O que falta é tempo”. O objetivo de compartilhar é simples: “Às vezes, servem de indireta para alguém, ou mesmo uma direta. Às vezes é porque eu achei fofo”, diz Priscila.

Em contrapartida, o que às vezes se restringe ao superficial para uns, é motivo de pesquisa para outros. O estudante Emerson Oliveira, 21, também publica frases de efeito nos perfis das redes sociais e nem por isso se contenta com duas linhas filosóficas.

“Só coloco [as frases] depois de conhecer a vida do autor, confirmar a autoria”, diz. “É claro que o Google ajuda”, diz, bem humorado. Embasado na opinião ou manifestação de algum escritor, Oliveira usa as frases como forma de expressar o que está sentindo “ou também dar uma opinião sobre determinado assunto”.

Em meados de 2009 o estudante Patchacamac Moreano, 24, deparou-se com um blog em que a autoria dos textos era atribuída ao dono da página.

“Eram textos mais clássicos, nitidamente não eram da pessoa”, diz Moreano, que começou a publicar os verdadeiros autores do texto em cada postagem.

“Tinha uma mensagem da Cecília Meireles. Eu acho isso chato, até hoje recebo por e-mail textos de autoria desconhecida com assinatura de famosos escritores. Nesses casos, sempre respondo à pessoa que me enviou o e-mail alertando que está errado.” Desmascarado, o blogueiro até chegou a entrar em contato com o estudante pedindo desculpas e, então, deletou a página. “Geralmente as pessoas ignoram”, diz.

Reconhecer falsos créditos na rede, segundo o mestrando Luis Cláudio Ferreira Silva, não exige especialidade no assunto. Estudioso da obra de José Saramago, ele já se deparou com situações semelhantes na internet.

“Um olhar mais atento, mesmo daqueles que não conhecem profundamente a obra de Saramago pode identificar a fraude”, conta. Basta saber o estilo do escritor para evitar postar textos com o nome do autor errado.

“Conhecido como hermético e exaustivo por conta de suas frases longas e páginas e páginas sem sequer abrir um novo parágrafo, Saramago, grande crítico de nossa sociedade, não poderia ter escrito uma frase motivacional ou de auto-ajuda com um estilo quase que telegráfico.”

Quase autor

O texto “Quase” foi atribuído várias vezes a Luis Fernando Verissimo, mas alguns sites apontam para Sarah Westphal com a verdadeira autora. Será?

“(…) Pros erros há perdão; pros fracassos, chance; pros amores impossíveis, tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma. Um romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance. Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando porque embora quem quase morre esteja vivo,
quem quase vive já morreu.”

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