Publicado originalmente por PAULO COELHO no The Wall Street Journal
O ato de escrever me permite sentir realmente vivo. Por outro lado, sabendo que já vendi 140 milhoes de exemplares no mundo inteiro (e tomando-se uma média de 3 leitores por exemplar, isso me faz chegar a meio bilhão de pessoas) , sempre me perguntei quem eram estas pessoas que entendiam tão bem aquilo que eu estava dizendo. Como países de culturas tão diferentes, como por exemplo Israel e Iran, podem se interessar por meus livros? Quando comecei a utilizar as comunidades sociais, sem qualquer assessoria ou planejamento, fui guiado por duas coisas: a curiosidade de saber quem me lia, e o desafio de escrever em uma plataforma tão diferente.

[coelho] E minha participação nestas comunidades sociais continuou de maneira instintiva. Mas para minha surpresa, ao entrar recentemente no Facebook, notei que tinha mais seguidores do que Madonna. No momento em que escrevo estas linhas, a cantora que admiro e respeito está com 6 milhões de “curti”, enquanto eu me aproximo dos 6,5 milhões. Como um escritor – relativamente desconhecido nos EUA – pode chegar a tanta gente?

Fiz uma pequena lista a respeito.

A] No início era a tradição oral. As pessoas contavam histórias umas às outras, sorriam e choravam juntas com o autor. Até que, no século XV, a imprensa foi inventada. As idéias passaram a viajar para mais longe e com muito mais velocidade, mas o autor destas idéias se tornou um personagem abstrato.

B] Nasce a torre de marfim da literatura. É um atributo dos semi-deuses interferirem na vida dos humanos sem jamais mostrarem suas faces. E a maioria dos escritores acreditou que se enquadravam nesta categoria. Sabendo que podiam influenciar sem serem vistos, alimentaram o mito da sabedoria que emanava acima dos outros mortais. Alguns por timidez, outros por arrogância, outros simplesmente porque achavam que sua pessoa não refletia sua obra. Por outro lado, os leitores estimularam esta relação distante: a palavra impressa passou a ser a “verdade”, a opinião definitiva.

C] A internet destroi a torre. No final do sec XX ocorre uma ruptura radical. De repente, tanto o leitor como o escritor voltam a ter a possibilidade de ter contato um com o outro – em tempo real.

E eu pensei: por que não aproveitar a oportunidade? Comecei com um blog, e em seguida me concentrei em duas comunidades sociais: Facebook e Twitter (que acabava de nascer – estou lá desde 2007). Podia conversar com gente que, ao ler meus livros, entendia minha alma.

D] A linguagem se modifica. Claro, eu podia usar estas comunidades sociais apenas para promover meus livros, mas o que adiantaria? A arte de escrever não está limitada ao livro impresso – mas ao ato de passar uma mensagem. Uma voz interior me dizia: “don’t be pushy. O que você e qualquer escritor deseja é ser lido pelo maior número de pessoas possível. Portanto, use esta nova linguagem e faça isso.” Criei o que chamo de “20 segundos de leitura”, com histórias e reflexões adaptadas para o tempo máximo de permanência de uma pessoa em uma página na Web.

E] O leitor já não é passivo, mas ativo. A medida que ia descobrindo quem eram meus leitores, entendia também que tínhamos muitos interesses em comum. Criei vários tópicos de discussão no meu blog, que vão desde o casamento à pirataria na internet. Abri também uma página para que pudessem comentar entre si, sem qualquer censura, os meus livros.

F] O leitor já não é mais leitor, mas um companheiro de jornada. Portanto, ele quer a sua companhia, e não a de um membro de sua equipe. E consegue distinguir, quase imediatamente, quem está do outro lado da página – porque ao ler seus livros, ele passou a conhecer muito de sua alma.

Atualmente uso três horas do meu dia para esta interação. Enquanto a quase totalidade de uma carreira literária como a minha está delegada a gente que faz parte do meu universo – como minha agente, meus editores, os livreiros, – eu tenho tempo e prazer neste contato direto.

E quando você gosta daquilo que está fazendo, as coisas sempre dão certo.

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