Casal brasileiro vendeu 5 mil exemplares de guia turístico de NY pela web. Buenos Aires será tema do próximo, em que ensinam a fugir da inflação.

“Nunca coma em restaurantes de shoppings, são muito caros e a comida é péssima.” “Em alguns lugares não se cobra o cubierto (a entrada à refeição dos argentinos).” Passar algumas horas com o casal de brasileiros Henry Bugalho e Denise Nappi é como ler “Guia de Nova York para Mãos-de-Vaca”, um compêndio de barbadas de todos os tipos que vendeu mais de 5 mil exemplares só pela internet.

Buenos Aires, onde estão vivendo desde o final do ano passado, é o cenário do próximo guia para os turistas que não gostam de desembolsar muito dinheiro. Com o livro ainda em fase de produção, os autores dividiram com o G1 algumas das recomendações para quem quer desbravar a capital portenha, que recebe 1,5 milhão de brasileiros ao ano.

“Diferentemente de Nova York, o turista brasileiro que vem a Buenos Aires é mais simples, muitas vezes é sua primeira viagem para fora. Então vamos dar dicas desde a compra da passagem aérea”, adianta Denise.

O casal Henry Bugalho e Denise Nappi, autores do guia 'Nova York para mãos-de-vaca' nas Galerias Pacífico, centro de Buenos Aires (Foto: Amauri Arrais / G1)

O casal Henry Bugalho e Denise Nappi, autores do guia 'Nova York para mãos-de-vaca' nas Galerias Pacífico, centro de Buenos Aires (Foto: Amauri Arrais / G1)

Desde que se mudou para a Argentina, o casal já viajou para Brasil, Chile, Peru e parte da Europa aproveitando promoções de companhias aéreas. A Itália, onde passaram mais tempo, talvez seja o próximo país a ser explorado num guia.

No país de Maradona, embora os índices de inflação divulgados pelo Indec (Instituto Nacional de Estatísticas e Censos, controlado pelo governo) sejam questionáveis, eles dizem já ser possível sentir o aumento dos preços no dia a dia. “Os argentinos sentem muito mais do que nós, pela desvalorização da moeda. Mas às vezes até as taxas cobradas em bancos aumentam de um dia para o outro”, conta Henry.

Vendendo água na rua

A história do casal –ele curitibano formado em filosofia e autor de vários livros de ficção não publicados, ela santista e ex-comissária de bordo- começou em 2006, com a quebra da Varig, onde Denise trabalhava. Meses depois, os dois desembarcavam em Nova York com “um mínimo” de dinheiro no bolso.

“Pagamos o primeiro aluguel de US$ 1 mil e sobrou menos ainda”, lembra Denise. Às vésperas daquele que seria o “dia mais quente do ano”, com alertas por rádio e TV para que os novaiorquinos ficassem em casa, o casal então teve a idéia que duplicaria a parca renda: investiram tudo em água mineral e um cooler e foram para uma das movimentadas esquinas de Manhattan vender.

“Depois de vender duas garrafas, veio um guarda e mandou que a gente recolhesse tudo porque não tínhamos licença para vender na rua. Ficamos com US$ 7”, conta a ex-comissária, rindo. Depois de encararem bicos em baladas e bares para brasileiros, os dois abriram um pequeno serviço de “dog care”, como é chamado o trabalho de passear com cachorros.

De tanto caminhar pela ilha, “cerca de 20 km por dia”, segundo Henry, e ainda com pouco dinheiro, foram acumulando uma lista de dicas para desfrutar da cidade com pouco dinheiro: de lojas onde era possível comprar bons produtos a US$ 1,99 a ingressos para cobiçados espetáculos na Broadway por US$ 15.

“Tínhamos uma meia dúzia de blogs que não faziam nenhum sucesso. Então, pensamos: por que não fazer algo com nossas experiências?”, recorda Henry. No ar desde então, o blog chegou a picos de 400 mil visitantes por ano. Foram eles que começaram a pedir e sugerir que publicassem as dicas. Sem editora, o casal resolveu pôr as “mãos-de-vaca” na massa: além de oferecer em formato PDF passaram eles mesmos a editar, imprimir e postar os exemplares nos correios.

De brasileiro para brasileiro

Impressos de forma independente por uma pequena editora ainda em Nova York, os volumes ocuparam diversas caixas que foram levadas para casa. Em sua segunda edição, o guia já contabiliza mais de 5 mil exemplares vendidos sem nunca ter passado por uma livraria. “Acho que o nosso é o único guia feito de brasileiros para brasileiros. Os outros são traduções. Essa proximidade faz as pessoas comprarem”, observa Denise.

Com menos exemplares em casa desde a mudança para Buenos Aires, o casal decidiumanter a venda da versão em PDF no blog  após a greve dos Correios, que atrasou pedidos, e depois de muitos leitores pedirem para ter a opção de levar também o guia em seus tablets eletrônicos. Vendidos atualmente por R$ 42,50 o pacote, o guia virou a fonte de renda dos dois.

10 mil seguidores

Além do blog, Henry e Denise tentam manter, na medida do possível, a informalidade e o contato com os leitores, por meio de e-mails e perfis em redes sociais, onde reúnem mais de 10 mil seguidores.

Engana-se quem pensa que só de “mãos-de-vaca” vive o guia. “No início, pensamos que íamos ajudar mochileiros, mas nosso público tem juiz, médico, engenheiro. Fizemos um encontro em São Paulo e foram umas 50 pessoas”, conta Denise, para quem o brasileiro ainda tem vergonha de pechinchar ou assumir que é mão-de-vaca.

De olho nesse público crescente, os dois já planejam guias em outros formatos, como um mapa de onde comer as melhores iguarias típicas de cada cidade. Sem gastar horrores para isso, claro.

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