Texto de Milena Magalhães publicado originalmente no Blog das 30 Pessoas

 

Quando é a hora? Qual o momento em que descobrimos que não podemos mais viver sem ler os escritos de um autor? E por que um escritor nos toca mais do que outro? E nos toca diferentemente em momentos diferentes? Ando assim. E deliro como se todo livro precisasse, antes, ser desejado, ansiado. Precisasse me atormentar, me fazer resmungar no meio da minha desatenção. Ou ainda rememorado, mesmo quando o escoadouro da memória é maior do que a memória.

Uma das minhas lembranças mais marcantes de descoberta de um escritor vem da leitura de Relatos de um certo oriente, de Milton Haltoum. Na primeira semana de um ano qualquer, somente porque o lia, chorei desesperadamente numa rodoviária entranhada no meio das rondônias. As pessoas me olhavam curiosas; por fim, quiseram me consolar e trouxeram-me um copo d’agua e me ficavam ainda mais atônitas quando eu dizia que chorava por causa do livro que estava lendo.

Lembro com muita nitidez quando li O processo, de Kafka. Rodeada por livros da biblioteca da minha professora de literatura, eu estava apaixonada e, por isso, sentia-me toda intensa, pronta para tudo e abismava-me sem amarras com aquele mundo labiríntico do sem-explicação e com aquela morte absurda no final.Porém, uma das minhas lembranças mais fortes está relacionada à leitura de Crônicas de uma casa assassinada, de Lúcio Cardoso. Vários dias depois da leitura, ainda sentia o cheiro das violetas podres e do corpo apodrecido entre as violetas, aterrorizada com aquela catarse delirante de revelações. Desde que vi os objetos de Farnese de Andrade relaciono-o com o universo literário de Lúcio Cardoso. Penso que só ele, no Brasil, pode ser comparado a Lúcio:::: a este desespero pelo próprio destino e o da humanidade.

Ainda lembro do primeiro livro que li do Graciliano Ramos, que não poderia ser outro senão Vidas Secas. Li-o numa tarde em que fui visitar uma pintora. Foi lá que descobri que nas pinturas existiam fundos de uma cor só. Eu deveria ter uns onze anos. Mas é da época de São Bernardo que me recordo melhor: aquelas corujas que não paravam de piar à noite se misturaram com minha própria coleção de corujas. Nunca mais deixei de ler Graciliano.Lembro, ainda, de Cem anos de solidão, do Gabriel Garcia Márquez. As memoráveis primeiras páginas; o gelo que queimava, os lençóis brancos voando… e o mesmo choro que irrompia em mim. Dessa vez, tanto o agora quanto o porvir pareciam maior que o mundo. E havia tanta gente linda ao meu redor::: do adolescente que me olhou com cara de “é claro” quando eu lhe perguntei se já havia lido Cem anos de solidão ao homem capaz de agregar uma porção de leitores ao seu redor, formávamos uma espécie de confraria que se reunia naquela livraria que não existe mais.

Lembro do encantamento com Cantares, de Hilda Hilst, que nunca mais se repetiu em nenhuma de outros dos seus livros que li.  Carreguei-o pra cima e pra baixo numas férias em que estava fugindo de mim mesma. Ou em busca de mim, não sei. Lembro que recolhia pedaços de um amor que, sendo amor, há muito deixara de sê-lo.

Ainda poderia ficar por muito tempo a escarafunchar minha memória, descobrir que a tenho, mas agora ela me pesa muito, como se carregar tanto dentro de mim explicasse por que é preciso que hoje eu esteja fazendo 37 anos, e não menos como gostaria. Paro, então, por aqui, surpreendida com os retalhos do meu passado. Não quero chegar naquela noite branca em que, com O inominável, de Samuel Beckett, dentro da minha bolsa, eu me sentia a pessoa mais feliz do mundo e prometia a mim nunca me dar menos do que a felicidade absoluta. Paro porque existem promessas que não podem ser cumpridas e, por isso, são tão bonitas de serem feitas. 

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