Depois de revolucionar o mundo das livrarias, a gigante digital avança sobre o filão editorial

Texto de David Streitfeld (The New York Times) publicado originalmente na revista Veja

A escritora Laurel Saville, em sua casa em Nova York - 11/10/2011A escritora Laurel Saville, em sua casa em Nova York: contrato com a Amazon, depois de muitas rejeições (Heather Ainsworth/The New York Times)

A Amazon.com ensinou aos leitores que eles não precisam de livrarias. Agora, ela os está estimulando a deixar de lado seus editores. No outono do hemisfério Norte, a Amazon publicará 122 livros em diversos gêneros, tanto físicos quanto eletrônicos. Essa é uma notável aceleração do programa de edição da Amazon, que colocará o varejista em concorrência direta com as casas de Nova York que são também seus fornecedores mais importantes.
 
A empresa criou uma linha principal comandada pelo veterano editor Laurence Kirshbaum para lançar marcas de ficção e não-ficção. Ela assinou seu primeiro contrato com o autor de autoajuda Tim Ferriss, um favorito dos homens jovens. Recentemente, anunciou também uma biografia da atriz e diretora Penny Marshall, pela qual pagou 800 000 dólares, segundo uma fonte com conhecimento direto da negociação.
 
Editores dizem que a Amazon está cortejando agressivamente alguns de seus principais autores. E a empresa está roubando serviços que as editoras, críticos e agentes costumavam oferecer. Diversas grandes editoras se recusaram a falar oficialmente sobre os esforços da Amazon. ”Os editores estão aterrorizados e não sabem o que fazer’’, afirmou Dennis Loy Johnson, da Melville House, que é conhecido por falar o que pensa. ”Todos têm medo da Amazon’’, concordou Richard Curtis, experiente agente que é também editor de livros eletrônicos. ”Se você é uma livraria, a Amazon já é sua concorrente há algum tempo. Se você é uma editora, algum dia você irá acordar e a Amazon será também sua concorrente. E se você é um agente, a Amazon pode estar roubando seu almoço, pois ela está oferecendo aos autores a oportunidade de publicar diretamente, cortando você da jogada’’. Conclui Curtis: ”Trata-se da antiga estratégia de dividir para conquistar.’’
 
Executivos da Amazon não quiseram comentar quantos editores a empresa contratou ou quantos livros possui sob contrato. Mas eles minimizaram o poder da Amazon e afirmaram que as editoras estavam obcecadas por sua própria morte. ”É sempre o fim do mundo’’, disse Russell Grandinetti, um dos principais executivos da Amazon. Ele ressaltou, porém, que a paisagem estava mudando pela primeira vez desde que Gutenberg inventou o livro moderno, há quase 600 anos. ”As únicas pessoas realmente necessárias no processo de edição hoje são o escritor e o leitor’’, afirmou ele. ”Todos que ficam entre esses dois têm riscos e oportunidades’’.
 
A Amazon começou a dar a todos os autores, publicando ou não, acesso direto aos cobiçados dados de vendas de livros da Nielsen BookScan, que registram quantos livros físicos estão sendo vendidos em mercados individuais como Milwaulkee ou Nova Orleans. Ela está introduzindo o tipo de comunicação pessoal entre autores e seus fãs que costumava ocorrer apenas em turnês de livros. Isso transformou um obscuro romance alemão num best-seller sem a interferência de qualquer crítico profissional.
 
No fim de setembro, as editoras tiveram um vislumbre de um futuro no qual elas não teriam função, quando a Amazon apresentou o Kindle Fire, tablet para livros e outras mídias vendido pela Amazon. Jeffrey Bezos, presidente da empresa, referiu-se diversas vezes ao Kindle como ”um serviço de ponta a ponta’’, evocando um mundo onde a Amazon desenvolve, promove e entrega o produto.
 
Para uma ideia do quanto as editoras estão agitadas pela investida da Amazon em seu negócio, veja o caso de Kiana Davenport, escritora havaiana cuja carreira saiu repentinamente dos trilhos em setembro.

Em 2010, Davenport assinou com a Riverhead Books, uma divisão da Penguin, para lançar The Chinese Soldier’s Daughter (A Filha do Soldado Chinês), uma história de amor na Guerra Civil. Ela recebeu um adiantamento de 20 000 dólares pelo livro, que deveria chegar ao mercado no próximo verão.

Se os escritores têm uma ideia claramente estabelecida na cabeça atualmente, é esta: vire-se sozinho. Assim, Davenport retirou da prateleira diversos contos premiados que havia escrito há 20 anos e os reuniu num e-book, Cannibal Nights (Noites Canibais), disponível na Amazon.

Quando a Penguin descobriu, ficou ”doida da vida’’, escreveu Davenport em seu blog, acusando-a de quebrar seu compromisso contratual de evitar concorrer com a empresa. A Penguin queria que Cannibal Nights  fosse tirado de venda e que todas as menções ao livro fossem apagadas da internet. Davenport se recusou e a Penguin então cancelou seu romance e declarou que buscaria ações legais caso ela não devolvesse o adiantamento. ”Eles estão tentando dar o exemplo: se você publica a si mesmo e distribui pela Amazon, você o faz por sua conta e risco’’, explicou Jan Constantine, advogado do Authors Guild que representou Davenport.

Davenport sabe qual foi seu verdadeiro crime: ”Dormir com o inimigo’’. A Penguin não quis dar declarações. Se alguns escritores estão sofrendo efeitos colaterais, outros vêm se beneficiando dessa nova configuração. Laurel Saville estava presa do lado de fora do velho sistema, quando as editoras de Nova York cuidavam da porta de entrada. ”Recebi muitos e muitos elogios, mas nenhum contrato’’, disse Saville, de 48 anos, uma escritora de negócios que mora em Little Falls, Nova York.
 
Há dois anos ela decidiu pagar pela publicação de um livro sobre o declínio de sua mãe, de rainha da beleza da Califórnia a pessoa das ruas e a vítima de assassinato. Ela gastou cerca de 2 200 dólares, conseguindo uma venda de 600 cópias. Nada tão terrível, mas longe de ser incrível. No último outono, Saville pagou 100 dólares para ser incluída numa lista da Publishers Weekly com escritores autopublicados. A revista acabou reexaminando seu livro, reservando a ele uma crítica que chamou a atenção de editores da Amazon. Eles enviaram a Saville um e-mail oferecendo-se para republicar o livro. Ele recebeu uma nova capa e um novo título. Unraveling Anne (algo como ‘Descobrindo Anne’) será publicado em novembro.
 
Saville não ganhou nenhum dinheiro adiantado, como ocorreria numa editora tradicional. Em essência, a Amazon tornou-se uma parceira. ”Imagino que eles queiram ganhar muito dinheiro com o livro, o que é bastante estimulante para mim’’, disse Saville. Seu contrato traz uma cláusula que a proíbe de discutir seus os detalhes, algo nada tradicional do meio editorial. Os planos de publicidade para o livro também são segredo. Poderia a Amazon criar seus próprios best-sellers? The Hangman’s Daughter (A Filha do Carrasco) foi um sucesso entre os e-books. A Amazon comprou os direitos do romance histórico escrito por um autor de primeira viagem, Oliver Potzsch, e traduziu-o do alemão. Já foram vendidas 250 mil cópias digitais. ”O mais fascinante no programa editorial da Amazon é que ele pode proporcionar esses fenômenos populares’’, afirmou Bruce Nichols, da Houghton Mifflin Harcourt, uma editora tradicional que republicou o romance neste verão.
 
Saville já nem contempla uma carreira com uma editora tradicional. ”Eles tiveram a chance deles’’, diz ela. Atualmente, Saville ela está escrevendo um romance. ”Minha esperança é que a Amazon também ache este maravilhoso, e que caminhemos felizes para sempre no horizonte editorial’’.

 

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