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Alexandra Moraes e Roberto Kaz, na Folha.com

O escritor Caio Fernando Abreu (1948-1996) “era meio gauche, maldito nos anos 80”, conta sua biógrafa, Paula Dip, autora de “Para Sempre Teu, Caio F.” (ed. Record). “Não vendia muito.” Agora, 15 anos depois de sua morte, o autor se tornou ícone literário das redes sociais.

A busca por “Caio Fernando Abreu” no Twitter e no Facebook revela um prodígio das citações. Estão lá, repetidas vezes, frases melosas como “E ela ama, mesmo sabendo que vai chorar tantas vezes ainda”, ou “Não foi nada. Deu saudade, só isso. De repente me deu tanta saudade”.

Um novo resultado surge a cada 15 segundos, em média, no Twitter.

No Facebook, de tanto ver frases do autor -verdadeiras ou falsas-, o artista plástico Leo Dias, 35, de Porto Alegre, criou um “hit”. Fez capa para um livro fictício de Abreu, “Frases de Facebook – 1.001 Citações para Intelectualizar o seu Perfil”, que se espalhou pela rede no fim de setembro.

“Direto eu vejo o pessoal postando citações do Caio, do Orwell, de Clarice Lispector e de Bukowski. Muitas vezes são pessoas que provavelmente nunca leram um livro, mas tomam emprestadas suas citações tentando soar mais profundas”, diz.

“Não passa pela minha cabeça julgar ninguém, mas também não vou deixar de tirar sarro.”

Para Paula Dip, o quadro é um pouco mais animador. “Acho que pelo menos um conto do Caio essas pessoas leram. E, em um único conto, você produz 20 citações para o Twitter”, calcula.

A “onda” Caio segue caminho parecido com aquele traçado por Clarice Lispector na rede. Rainha absoluta das citações, a ubiquidade de Clarice acabou dando margem a gozação.

Ganhou frases falsas de propósito, como “É estranho sentir saudade de algo o qual não vivi ou evitava viver”, cunhada no Twitter pelo publicitário Danilo Miranda, 25.

“Não lembro o que motivou a frase, mas eu estava em algum momento bem brega”, conta. Tomada por verdadeira, a sentença chegou a integrar comunidades “sérias”. No fundão da web, virou bordão de palhaçada e ganhou um blog de montagens, evitavaviver.tumblr.com.

CRÍTICAS

Hoje em pé de igualdade nas citações, Caio e Clarice também se aproximam pela profusão das críticas.

“Por favor, se alguém souber como bloqueia as palavras ‘Clarice Lispector’ e ‘Caio Fernando Abreu” do Twitter irei agradecer”, escreveu @lrinnert na última quinta.

“Acho que a Clarice Lispector e o Caio Fernando Abreu devem estar se revirando no túmulo, pois vocês não os deixam em paz”, completou @Led_ZzZ.

No Facebook, uma página para fãs de Caio e Clarice mistura citações de ambos e platitudes sem dono da internet. Com mais de 42 mil fãs, traz à era das redes sociais uma afinidade que de fato existiu.

“O Caio era apaixonado pela obra da Clarice. Quando se encontraram, ela disse: ‘Não leia mais os meus livros, para ter o seu próprio estilo'”, conta Dip.

Para o biógrafo de Clarice, Benjamin Moser, o fanatismo virtual tem a ver com o conteúdo real dos autores. “Eles falam algo sobre aquela sensação adolescente de ‘O que faço de mim?’, ‘Como amo?'”.

Dip dá diagnóstico similar: “O Caio sempre se apaixonava errado, algo que jovem adora. O primeiro romance dele, ‘Limite Branco’, é totalmente adolescente, assim como boa parte dos usuários”.

“Já soube que a Angela Bismarchi cita Clarice no Twitter. Entrou para o folclore nacional”, diz Moser.

É verdade. “Vou mimi [sic] e deixar essa pérola: ‘Estou cansada de me defender. Sou inocente. Até ingênua porque me entrego sem garantias’. Clarice Lispector”, ela escreveu recentemente. Para Bismarchi, ícone do Carnaval e da cirurgia plástica, “Clarice é uma mulher de suspense”. “Nunca li nada dela. Foi tuitando que a descobri”, diz.

Moser identifica aí um ponto positivo das redes sociais. “Se as frases chegam ao Twitter de forma mais cafona, é ótimo, porque saem de uma interpretação hermética e ficam mais populares.”

foto: Caio Fernando Abreu

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