Texto mais famoso do mundo árabe passou por acréscimos e recortes ao longo dos séculos sem perder seu apelo como fonte de beleza e encantamento

Manuscrito árabe utilizado por Galland em sua tradução das Mil e uma noites (séc. XIV ou XV) Foto: Wikimedia Commons

Publicado originalmente na revista Educar para Crescer

Quando o rei Sahriyar descobre que foi traído, decide não mais confiar nas mulheres e passa, então, a executar suas noivas no dia seguinte ao casamento. Depois de muitas mortes, o grão-vizir encarregado de levar as pretendentes à alcova real não encontra mais candidatas. Mas, para seu espanto, sua filha Sahrazad se oferece para casar com o monarca. Sahrazad tinha um plano. Com uma técnica infalível salvaria a própria vida e a de todas as mulheres do reino. 

Assim se inicia O Livro das Mil e Uma Noites, a mais célebre coletânea de contos de todos os tempos. A estratégia de Sahrazad, de sempre prometer contar aventuras mais excitantes na noite posterior (fazendo com que o rei lhe poupe a vida para não perder a continuação das fábulas), permite que as histórias sejam narradas uma após a outra, num encadeamento aparentemente ilimitado. 

Acredita-se que as narrativas de Sahrazad sejam uma compilação de histórias da tradição oral dos povos da Síria, Pérsia e Índia. A primeira menção da obra data do século 9 d.C. O manuscrito mais conhecido, no entanto, foi escrito na segunda metade do século 13, depois da invasão e devastação de Bagdá pelos mongóis, e contém 282 noites – “mil e uma” é figura de linguagem, que denota o infinito. Outras histórias foram acrescentadas e incorporadas no século 18, quando surgiu a tradução francesa de Antoine Galland (1646-1715), a primeira no Ocidente. 

Desde então, O Livro das Mil e Uma Noites tornou-se um dos textos mais lidos e comentados da literatura. É ainda apontado como a obra que mais teve traduções e reedições no Ocidente depois da Bíblia, além de representar a principal imagem do mundo árabe para o imaginário ocidental. O curioso é que personagens como Ali Babá, o marujo Simbad e o gênio da lâmpada Aladim – que se tornaram independentes do conjunto da obra em adaptações para o cinema e histórias para crianças – não são originários do Oriente. Estudos comprovam que foi o tradutor Galland quem criou essas narrativas, assim como excluiu outras, por causa do conteúdo erótico. Como afirmou o escritor argentino Jorge Luis Borges, o texto atravessou o fogo das erratas, das versões aproximativas, das leituras distraídas e das incompreensões sem perder a sua condição de obra-prima universal. 

A coletânea – que inclui sagas heroicas, piadas escatológicas, parábolas, crônicas do cotidiano do islã medieval, debates retóricos, poemas e literatura sapiencial – apresenta-se num texto solto, prenhe de coloquialismos próprios da língua falada, sem negligenciar a coesão da linguagem escrita. As histórias de O Livro das Mil e Uma Noites guardam identidade com outras obras que também investem em narrativas da tradição oral, como o Decamerão, de Giovanni Boccaccio (1313-1375) e Os Contos de Cantuária, de Geoffrey Chaucer (1340?-1400). 

A perícia de Sahrazad na arte de contar histórias vale-se de instrumentos retóricos como adiamentos e interpolações. A estrutura da obra também conta com o recurso de encaixar fábulas umas nas outras. Com procedimentos como esses, mantém-se acesa a curiosidade pelo desenvolvimento do enredo. A cada conto, a narradora renova o interesse do leitor com a advertência constante: “Isso não é nada perto do que irei contar-lhes na próxima noite, se acaso eu viver e o rei me preservar”. A fórmula, repetida com sutis variações, busca superar a pretensão ao didatismo e ao caráter exemplar. Nesta obra, o objetivo principal é encantar e divertir – e, com isso, principalmente, adiar a morte.

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