Texto de Raquel Gonçalves publicado originalmente no A Preto e Branco 

 

Acredito, com aquela força da razão e do coração, que a vida está nos livros. Toda a vida. Assim, folha a folha, palavra a palavra.

A minha, pelo menos, fez-se de livros. Das primeiras letras soletradas, à alegria de conseguir ler a fio, quase sem fôlego, quase suspensa da matéria dos dias.

Vou de mão dada com o meu irmão pela estrada grande, Aquela por onde passam muitos carros e é preciso cuidado. Olhar para a direita, depois para a esquerda, e atravessar a passo largo. 

Em frente à escola, de amplas janelas fechadas pelas ‘férias grandes’, uma carrinha exibe a orgulhosa inscrição de ‘Biblioteca Calouste Gulbenkian’. Estamos no início dos anos 80 e os livros são uma raridade. Demasiado caros para orçamentos que se esticam até ao fim do mês.

O cartão da biblioteca é o trunfo que se guarda entre outros tesouros. A lata do chocolate, o cromo difícil, o bilhete do primeiro filme no cinema.

Sem senha ou palavra-chave, o cartão dá acesso à magia dos livros. Daqueles que se levam para casa com prazo de leitura e antecipada derrota por não nos pertencerem por inteiro.

Não sei que mês era, mas lembro-me que o meu primeiro livro falava de unicórnios, animais encantados e mundos fantásticos. Parece que ainda consigo ver as imagens, sentir o cheiro das folhas, a capa grossa e brilhante, orgulhosa.

Não sei se foi magia do unicórnio, mas a partir daí não consegui parar de ler. Tenho dos livros o sentido de pertença sem reservas. A vida por inteiro.

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