Publicado originalmente no UAI

Microblogs e perfis são atualizados quase diariamente

Escritor Paulo Coelho /AFP PHOTO / Tiziana Fabi

Paulo Coelho tem vários posts. Fabricio Carpinejar está sempre atualizando os dele e, recentemente, Nélida Piñon decidiu aderir às criações instantâneas. Nas redes sociais, escritores brasileiros transformam leitores em seguidores e fazem de microblogs e afins verdadeiros laboratórios literários, mantendo o estilo que os consagrou. “É no Twitter que eu afino o meu lápis”, revela o escritor gaúcho Fabrício Capinejar, de 38 anos, 18 livros publicados e administrador de quatro blogs, três perfis de Twitter e uma página no Facebook, na qual mantém, com a mulher, abertas e líricas discussões de relação (as “DRs”).

Os escritores brasileiros encontraram nas redes sociais um nicho onde testam estilos e a capacidade de se reinventarem sendo eles mesmos. Carpinejar mantém nos textos das páginas as frases poéticas, questionadoras e cortantes frequentes em suas criações literárias; só que, em geral, estão em pílulas e com contornos mais íntimos. “Ali, sou mais conciso e afetivo, pessoal, emocional. Me exponho. Nas redes, revelamos o lado mais humano, até porque não dá para fingir ser um personagem 24 horas por dia”, diz o escritor, que não deixa um dia sequer de atualizar as várias páginas. “A paixão perdoa porque só pensa no futuro, o amor cobra porque só pensa no passado”, cita, em um tweet, o autor que adora falar de amor e vem conquistando cada vez mais seguidores, assim como leitores.

“O sujeito gosta das minhas frases no Twitter, identifica-se com o que leu na revista, ou Facebook ou no blog. O movimento natural é que ele acabe virando meu leitor, que leia meus livros”, acredita o escritor, que não se sente pressionado com tantos focos literários. “Transar e escrever são coisas que faço por absoluto prazer”, brinca.

O prazer também é o grande motivador da escritora carioca e imortal da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon, que, desde 10 de outubro, aventura-se nas postagens diárias em sua página no Twitter. Dosando poesia, densidade, humanidade e “cotidianidade”, a escritora de 74 anos se diz encantada e motivada a escrever com o limite dos 140 caracteres. “Me senti desafiada a escrever no Twitter. E rapidamente me adaptei. De uma sentada, escrevo vários posts. É um espaço curto, e que pode ser densa”, diz a escritora, que, desde que entrou na rede social, vem extraindo poesia do cotidiano no território de aforismos da internet. “A tia deu-me o nome Nélida que o avô rejeitou. Ainda assim amou-me, ajudou-me a descobrir as jazidas do cotidiano. Tornou-se a minha narrativa.” Esse foi seu primeiro post na rede.

Exercício ético

Escritora Nélida Piñon / REUTERS: Victor Fraile

E não será surpresa se, em breve, seus 631 seguidores (até o fechamento desta reportagem) tiverem acesso a textos mais prosaicos, as receitas culinárias ou as peripécias de Gravetinho, seu cachorro. Todos estão na pauta dos assuntos que Nélida pretende revelar nos próximos dias. Ela quer testar até onde pode ser simples sem descambar para a superficialidade. “Não acredito em banalidades”, diz a autora, que, em poucas ou longas palavras, não se furta a dar transcendência ao cotidiano.

Outros escritores de peso da comunidade literária brasileira, como Millôr Fernandes e Paulo Coelho, contabilizam a aprovação de milhares de seguidores apostando na fidelidade de estilo. Em seu blog, Twitter e Facebook, o mago da autoajuda, autor do livro mais lido e traduzido em todo o mundo (Diário de um mago), aconselha aos seus mais de seis milhões de seguidores interplanetários com cerca de 10 lições de vida por dia, como “Escrever é fazer amor com o computador” ou “Domingo: dia de agradecer muito todas as bênçãos que recebemos”. Mestre dos aforismos irônicos, Millôr Fernandes, de 87 anos, já tuitava antes mesmo de a internet surgir ou de o Twitter aparecer. E até com menos toques. %u201CLivre como um táxi%u201D é uma de suas máximas (ou mínimas?) com apenas 50 toques. Com lições menos românticas, o “Guru do Méier” mantém no Twitter e, no seu blog, o estilo irônico e descrente que lhe consagrou lá nos idos da década de 1970, ainda no Pasquim. “Todo homem nasce duas doses abaixo do normal”, ensina Millôr.

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