Martha Mendonça, no Blog 7×7

A história é real, um amigo me contou ontem.

Ele é casado há três anos. Vive bem com a mulher, cada um tem seu trabalho, ainda não têm filhos. Não costumam brigar muito, no máximo aquelas discussões normais – e até saudáveis – de quem vive sob o mesmo teto. Vamos chamá-lo de Paulo e ela, de Marina.

Há cerca de um mês, Marina chegou em casa com um livro de auto-ajuda feminino debaixo do braço: um best-seller americano que pretende ensinar às mulheres como agir. Fora emprestado pela irmã, solteira.

De umas semanas pra cá, Marina mudou com Paulo. Adotou um tom por vezes imperativo, noutros acusatório. Reclamou de seu comportamento, de sua dedicação extrema ao trabalho, da falta de atenção que lhe dava. Era ele falar A e ela retrucava: pois eu quero B! Nas discussões, adotou um vocabulário estranho. Expressões que ele nunca tinha ouvido dela antes. Teses sobre homens e mulheres. Até que ela citou um ensinamento do livro. Algo que falava sobre “mulheres-capacho”, “mulheres boazinhas”, “cônjuge dominante”, etc. Então caiu a ficha para Paulo: Marina seguia os passos do livro.

O casamento virou um inferno. A harmonia que existia acabou. Marina levava tudo a ferro e a fogo, não admitia decisões que não fossem as suas. A gota d’água foi na semana passada, quando ela pediu que Paulo a buscasse no trabalho e ele alegou que não podia, pois estava acompanhando a avó que precisava fazer compras num shopping. Marina desligou o telefone, se fechou e dias depois, no aniversário de Paulo, não lhe deu qualquer presente. Foi fria e distante.

Discutiram feio e Paulo disse que não aguentava mais: pegou o livro e rasgou em picadinhos. No meio de sua raiva, imaginou que Marina partiria para cima dele, agressiva, diante da destruição de sua “bíblia”. Mas aconteceu justamente o contrário: ela sentou-se na cama e começou a chorar. Depois o abraçou e confessou: estava aliviada.

Paulo me garante que o livro, ali na cabeceira do quarto deles, exercia uma espécie de feitiço sobre a mulher. E que ele a libertou.

Eu não sei qual a moral da história, mas ri muito quando ele me contou. Acho que homens e mulheres estão passando por uma fase de construção de novos tipos de relacionamento, num momento em que nós não somos mais tão ferrenhamente feministas e nem eles machistas. No meio dessas mudanças de papeis, o mercado tem tantos livros, guias e fórmulas mágicas que podem deixar muita gente perdida, confusa.

O importante é cada um criar sua própria receita de ser feliz.

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