Ideia é aquecer mercado literário

Texto de Nahima Maciel publicado no UAI

Imagine ligar a televisão e, em vez do comercial de sabão em pó, deparar-se com a propaganda de um livro. Ela pode até parecer um filme, graças ao estranhamento que certamente vai causar, mas, ao final, você descobre que se trata de um livro. E de mais de 300 páginas. As editoras brasileiras descobriram o filão há três anos e ainda investem timidamente. Nos Estados Unidos, o book trailer é peça de divulgação de obras há pelo menos meia década e é levado tão a sério que o site Amazon criou até um prêmio para os melhores produtos.

Os book trailers são peças de circulação em ambientes muito específicos. Todos estão disponíveis no YouTube, mas costumam ser apresentados em feiras de livros, eventos promocionais e nos sites das próprias editoras. Algumas optam também por outros espaços. “Veicular em cinema é muito interessante porque você consegue programar o book trailer antes de um filme que tenha afinidade com o seu público-alvo”, avalia Bruno Zolotar, diretor de marketing da Record, que costuma produzir os próprios trailers, mas também incentiva a interação com o leitor.

O formato tem recepção especialmente positiva entre os leitores jovens e a editora carioca, que chegou a criar um concurso para escolher o melhor trailer feito pelo público para o livro Amores infernais (Melissa Marr). “É uma forma legal de descobrir o tom do livro. Por meio das imagens e da trilha sonora, dá para saber se o livro vai ser mais tenso, uma comédia descontraída, um livro de terror”, diz a estudante Pâmela Gonçalves, leitora compulsiva e vencedora do concurso da Record. “Sempre espero que o vídeo transmita a personalidade e o tipo de história que terá o livro. Infelizmente, alguns são um pouco informativos demais e entregam alguns spoilers. Isso pode ser chato. Na maioria das vezes, adoro ver.”

Para Roberto Feith, editor da Objetiva, os trailers são espaços ideais para experimentar linguagens e diálogos com o leitor. “A mídia para cinema tem algumas limitações de formato de áudio, por isso, essas produções tendem a ser mais restritas a imagens. Na internet, ficamos mais livres para criar e podemos lançar mão de roteiros mais ousados”, diz. O ideal é imprimir nos vídeos o que Feith chama de capacidade viral. Se instigante e ben-feita, a peça repercute em perfis e rede sociais, tornando-se mais eficaz do que anúncios, graças aos comentários e compartilhamentos.


Trailer para livros é uma tendência mundial que só se tornou possível com a popularização dos sites de hospedagem de filmes como o YouTube e o barateamento de novos softwares e câmeras. A projeção digital em salas de cinema contribuiu para a viabilidade desses curtas. O conteúdo costuma ser irregular. Pode acrescentar ao livro quando traz entrevistas com autores. Pode alimentar as especulações sobre determinado escritor, caso do recluso Thomas Pynchon, que narra o trailer. E pode ainda revelar o quanto a narrativa é próxima de uma linguagem visual e cinematográfica. Alguns são bem conservadores, como os da Record para Se eu fechar os olhos agora, de Edney Silvestre.
Confira o teaser animado de Cachalote:

 

 

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