Publicado originalmente na IstoÉ

Diário inédito há sete décadas traz à tona os relatos de Encarnació Martorell, que aos 12 anos decidiu registrar o dia a dia da Guerra Civil

O século XX foi o século das guerras. Foi também o século que selou o fim dos discursos únicos e totalizantes, o que permitiu consagrar, no outro extremo, as histórias pessoais e sua subjetividade. Isso explica, em parte, o sucesso de livros autobiográficos, em especial daqueles em forma de diário secreto que podem guardar expe­riên­cias tão particulares quanto as de uma menina diante da guerra, da fome, da iniquidade e do horror dos homens. O relato “Com Olhos de Menina: Um Diário sobre a Guerra Civil Espanhola” (Record), que segue a trilha do clássico “O Diário de Anne Frank”, chega ao Brasil para provar que, pelo menos no mercado de livros, esse tipo de obra continua sendo uma fórmula inequívoca.

Antes das similaridades, eis algumas diferenças: a pequena Encarnació Martorell, então com 12 anos, se antecipou à famosa Anne Frank e escreveu suas memórias seis anos antes, entre 1936 e 1938. Ao contrário dos diários de Anne, publicados apenas dois anos depois do final da Segunda Guerra Mundial, os de Encarnació ficaram inéditos por 70 anos no sótão de sua antiga casa em Barcelona. Foi o pesquisador Salvador Domènech quem a convenceu a torná-los públicos – e todo o processo de edição se deu sob seus auspícios. Anne não teve a mesma sorte: morreu no campo de concentração de Bergen-Belsen sem poder decidir sobre o futuro de seus textos.

A fome, a incerteza diante do futuro, os dilemas da adolescência e o medo são temáticas comuns às duas obras, com a diferença de que Encarnació deixa extravasar, com frequência, uma fúria precocemente politizada, cheia de críticas ao fascismo, às tropas nacionalistas de Francisco Franco e à Sociedade das Nações (organização multilateral que antecedeu a ONU). Não poderia ser diferente: a região onde vivia, a Catalunha, que tem Barcelona como capital, foi uma das mais castigadas pelos bombardeios e pelo bloqueio econômico. “O problema é que as forças leais não lutam contra o fascismo espanhol, mas contra o fascismo internacional. A Sociedade das Nações dorme”, escreveu ela. Encarnació e Anne são personagens que seguem gerando interesse por conta de posicionamentos não elaborados – e até por isso cortantes – diante da complexidade e perversidade das guerras.

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