Texto escrito por Ivan Maciel de Andrade em Tribuna do Norte

Há uma moda de citações literárias que tomou conta e domina de forma avassaladora tanto o Facebook quanto o Twitter. São numerosos e ora simplórios, ora sofisticados – no gosto revelado e nos temas escolhidos – os poemas e as frases de grandes nomes da literatura, nacional e estrangeira, reproduzidos nas mensagens postadas por praticamente todos os usuários dessas duas redes sociais. O Google oferece, para que essa empreitada se viabilize, um manancial inesgotável e de fácil acesso: um acervo de dados e informações para pesquisa que surpreende, pela amplitude e variedade, ao mais constante, experiente e exigente aficionado da internet.

O caderno Ilustrada da Folha de S.Paulo do dia 30 do mês passado traz em sua primeira página uma reportagem sobre o assunto, em que informa que “frases do ex-maldito Caio Fernando Abreu viraram febre nas redes sociais, onde antes reinava Clarice Lispector”. O que mais chamou a atenção dos autores da reportagem é que circulam frases atribuídas a esses dois escritores, mas que são falsas, apócrifas, inautênticas. Por seu próprio conteúdo e pela forma, algumas citações já despertam suspeitas ou mesmo demonstram claramente, por sua má qualidade literária, que foram irresponsavelmente forjadas. O artista plástico gaúcho Leo Dias publicou “um livro fictício” de citações de Caio Fernando Abreu (com a fotografia dele na capa), que “se espalhou” pelas redes sociais: “Frases de Facebook – 1001 citações para intelectualizar o seu perfil”. Já o biógrafo norte-americano de Clarice Lispector, Benjamin Moser, reconhece que as frases que chegam às redes sociais são “cafonas”, mas acha isso “ótimo”, porque perdem o caráter hermético e “ficam mais populares”. As coisas assumiram tais proporções que foi criado um “blog de montagens” para facilitar a vida de usuários das redes sociais, digamos, menos familiarizados com a literatura, que, a partir daí, poderão fazer citações “eruditas”, sem qualquer dificuldade, porque estão redigidas em linguagem compreensível, com um conteúdo banal (geralmente meloso, piegas), cheio de lugares-comuns: receita para quem nunca leu nem gosta de ler. O perigo que vejo nisso tudo é o de se criar, com o tempo, uma literatura paralela à que foi escrita por Clarice ou Caio Fernando. Alguns usuários confessam só conhecer esses autores através de citações no Facebook e Twitter.

Seria uma hipótese parecida com a daquele genial conto de Jorge Luis Borges em “Ficciones”: “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. No prólogo, Borges diz: “he preferido la escritura de notas sobre libros imaginarios” e cita esse conto, ao lado de outro. O conto mescla personagens reais – Borges e Bioy Casares, por exemplo – com ficção (a descoberta, numa antiga Enciclopédia, de um país, Uqbar, e de um planeta, Tlön, inventados por uma “sociedade secreta” de cientistas, poetas, artistas, filósofos, geômetras, pintores etc.). Anota Borges: “a literatura de Uqbar era de caráter fantástico e suas epopéias e suas lendas não se referiam jamais à realidade”. Será que as redes sociais tendem se transformar, pouco a pouco, numa espécie de Orbis Tertius, com a criação de toda uma literatura imaginária pertencente a um planeta virtual? A tendência parece ser essa.

De qualquer modo, com citações confiáveis ou não, as redes sociais prestam uma homenagem à literatura. E quantas vezes é preciso reler “O coração das trevas” de Joseph Conrad para perceber que a literatura é o principal instrumento de que dispomos para auscultar o sentido mais profundo da vida? Na verdade, ela acrescenta ao tempo e ao espaço de nossas vidas o tempo e o espaço de muitas outras vidas. Além de distender nossas fronteiras mentais, aguçar nossa sensibilidade, enriquecer nossa capacidade de percepção. Afinal, a literatura não é fruto apenas do poder criativo da inteligência, pois ela flui, em grande parte, de uma área desconhecida e indevassável constituída por fatores intuitivos, obscuros, inconscientes, que vão além dos limites racionais. A ausência da literatura gera um terrível vazio que desfigura a condição humana…

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