Gonçalo M Tavares, Nelson de Oliveira e Fernando Baéz discutem os porquês de ser escritor (Foto: Katherine Coutinho / G1)

Gonçalo M Tavares, Nelson de Oliveira e Fernando Baéz discutem os porquês de ser escritor

Fabio Victor, na Folha.com

Antes de sair da pousada em que está hospedado em Olinda para falar no debate que seria um dos mais estimulantes da Fliporto até aqui, Gonçalo Tavares ouviu alguém sugerir a uma hóspede um programa imperdível nas manhãs de domingo na cidade histórica, os cantos gregorianos do Mosteiro de São Bento.

Animou-se ele próprio a ir, dizendo que adora recitais assim, mas resignou-se ao compromisso profisional –o painel “Como e por que sou escritor”, ao lado do venezulano Fernando Báez, com mediação de Nelson de Oliveira.

No primeiro encontro deste terceiro dia da Fliporto (Festa Literária Internacional do Livro de Pernambuco), o português nascido em Angola, premiado por obras como “Jerusalém” e “Uma Viagem à Índia”, falou do poder ambíguo que têm os livros.

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Sendo “máquinas de fazer pensar”, apontou Tavares, os livros podem transformar positivamente sociedades, mas podem também ser usados para o mal –ele citou “Mein Kampf” (“Minha Luta”), a obra em que Hitler fundamenta o ideário nazista, ou os arquivo de Stálin.

“Um livro é como uma faca, que pode matar, mas serve também para passar manteiga no pão que damos ao nossos filhos”, comparou.

Foi um breve contraponto a um diagnóstico mais leve, apaixonado até, que o escritor fez da função da literatura e do livro no mundo contemporâneo.

“Vejo a leitura de um livro como a entrada num espaço sagrado, numa igreja. Quando entramos numa igreja, caminhamos mais devagar, ficamos em silêncio, assim como quando abrimos um livro. O livro é uma espécie de igreja encadernada.”

Gonçalo Tavares contou que um dos aspectos que mais lhe encantam na literatura é “como de um conjunto de traços, do mundo abstrato do alfabeto, conseguimos fazer algo real”.

“Ler é como uma magia branca, é deixar de ler para começar a ver as coisas.”

“A ficção”, prosseguiu o português, “é uma espécie de doença mental, e acreditar na ficção é ter uma doença mental temporária, acreditar em traços, desenhos. É uma perturbação mental muito simpática”.

“Tem uma lógica se nos emocionamos com o cinema, pois nos emocionamos com uma imagem, faz sentido. Mas é espantoso como nos emocionamos com traços, como ativamos nossa ineligência com traços.”

Ele observou que o duplo sentido da palavra portuguesa “reparar” condensa esse potencial transformador da literatura. Significa ao mesmo tempo “continuar parado” e “consertar”.

“Só quando paramos seguidamente é que conseguimos consertar alguma coisa. A literatura tem essa possibilidade.”

SALVO PELOS LIVROS

Autor de “História Universal da Destruição de Livros”, ensaio elogiado por Umberto Eco e Noam Chomsky, Fernando Báez lembrou de como foi salvo da fome e da pobreza no interior da Venezuela.

Ele contou que vivia numa biblioteca pública, inundada por uma enchente do rio Orinoco, e a partir deste episódio passou a pesquisar e valorizar mais a literatura.

Crítico feroz dos governo dos EUA e da intervenção militar do país no Iraque, Báez foi aplaudido pela plateia ao condenar uma vez mais a política norte-americana.

PÚBLICO FRACO

Apesar do bom nível do debate entre Gonçalo Tavares e Fernando Báez, com boa mediação de Nelson de Oliveira, mais uma vez a tenda da Fliporto recebeu um pequeno público -cerca de cem pessoas, num auditório com capacidade para 900.

O único painel que encheu a tenda foi a conferência e abertura, na sexta à noite, com o guru indo-americano Deepak Chopra, na qual boa parte da audiência era de convidados –na ocasião houve também discursos do governador de Pernambuco, Eduardo Campos, e do prefeito de Olinda, Renildo Calheiros.

Foto: Katherine Coutinho / G1

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