Lançada em 1983, biografia de Frida ganha tradução em português e apresenta pinturas e amores da artista

Marta Barbosa no UOL

Capa da biografia "Frida" / Foto: Divulgação

Há inúmeros livros, novas e antigas edições, sobre Frida Khalo (1910 – 1954) e suas obras de encantadora dor latente. A vida da artista mexicana, marcada por seu temperamento forte, pela sua bissexualidade e por fortes dores causadas por um acidente na adolescência, foi até enredo de Hollywood (de Julie Taymor, com a atriz Salma Hayek no papel principal).

Muito se sabe e muito se escreve sobre Frida, popular ao ponto de ter o rosto estampando a nova cédula de 500 pesos no México. O que torna, então, “Frida – A Biografia” (Globo Livros, tradução Renato Marques) uma leitura imperdível não é exatamente o que se diz, mas como se diz.

Este livro, enfim traduzido ao português, marcou a retomada da artista nos Estados Unidos, e consequentemente no resto do mundo. Foi lançado originalmente em 1983 e foi escrito por Hayden Herrera, famosa historiadora de arte, especializada em América Latina. Foi com base nesta densa obra que o roteiro para o cinema foi desenvolvido.

Hayden foi professora da Universidade de Nova York, já escreveu para New York Times e Connoisseur e traz neste livro um trabalho de apuração de fôlego. São 624 páginas e cadernos de ilustração com reproduções de quadros marcantes de Frida, além de imagens do arquivo pessoal da artista.

Além de interessantes notas sobre a vida de Frida, a autora conduz instigantes descrições dos quadros. Um exemplo é “Umas facadinhas de nada”, pintura de 1935 baseada numa notícia de jornal. Um homem bêbado matou a namorada com vinte facadas, sem nenhuma razão aparente, e disse à polícia que deu apenas “umas facadinhas nela”.

Na tela, a imagem é assustadora e a forma como é narrada por Hayden a torna fascinante. “Como em algumas representações de Jesus descido da cruz, um dos braços da mulher está caído, a palma da mão, ferida e sangrando, aberta na direção do observador.”

A autora faz também uma interpretação política do quadro ao apontar para o fato de, numa forma de revolta ao padrão machista que fazia desse um crime banal no México dos anos 1930, Frida mantém o autor das facadas de pé diante do corpo da vítima.

Hayden ainda narra o quadro pela perspectiva biográfica, pela qual Frida projeta seu próprio sofrimento na imagem da mulher esfaqueada. “Como se a dor imediata fosse imensa demais para ser registrada, pintou ‘Umas facadinhas de nada’, retratando não a sua própria experiência, mas seu sofrimento projetado na desgraça da outra mulher.”

O texto de Hayden consegue ser ao mesmo tempo apurado como convém ao uma especialista, e apaixonado como são os fãs diante de seus ídolos. Essa combinação de precisão e admiração resulta em interessantes interpretações sobre características da personalidade de Frida, a exemplo do lesbianismo e a influência disso em sua arte.

“Juntamente com o amor-próprio e dualidade psíquica, é sugerido pelos autorretratos duplos e emerge em muitas pinturas como um tipo de atmosfera, uma sensualidade tão profunda que era desprovida de polaridades sexuais convencionais, uma fome de intimidade tão urgente que ignorava o gênero.”

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