Escritor deixou aos herdeiros a decisão de publicar Claraboia, escrito em 1953 e que narra a história de moradores de um prédio da periferia de Lisboa

João Paulo no UAI

AFP PHOTO / PIERRE-PHILIPPE MARCOU
Literatura de José Saramago vai perdendo as amarras ideológicas do homem político para ganhar autonomia estética do criador

 

Quando morreu no ano passado, José Saramago, aos 87 anos, era considerado o maior prosador da língua portuguesa. O Nobel de Literatura, em 1998, consagrou uma carreira que foi construída basicamente na maturidade. O que o escritor colhia de elogios por seu estilo pessoal e único, o homem político reunia de desconfianças pelo mundo afora. Comunista de carteirinha, crítico acerbo dos rumos da sociedade de consumo e da ideologia unitária de uma era de convenções, Saramago fazia de seu ceticismo uma marca.

Ficou por isso colada a ele uma caracterização de homem maduro, firme em convicções e definido em termos estéticos. Saramago inventou um modo literário, feito de longos períodos, com pontuação peculiar, em que os diálogos se sobrepunham às digressões e reflexões, intercalando várias vozes no mesmo parágrafo. A arte do escritor estava em construir texto tão complexo com absoluto domínio do ritmo e fluidez. Sempre foi mais fácil ler Saramago que explicá-lo.

A distância no tempo e o esfriamento das opiniões de circunstância deverão contribuir para intensificar a relevância do artista. Sua obra ganhará novas leituras até que se esmaeça o verniz político para destacar a força da criação. Cenas de romances, a arquitetura sofisticada de algumas obras e o desenho dos personagens em situação vão se sobrepor ao peso da ideologia em favor da invenção e da beleza. A última palavra deverá ser do romancista. Não se pode, sem má-fé, acusar Saramago de romancista de teses ou pregador de saídas moralistas e maniqueístas. Se há uma marca política em suas obras é o prazer em contar histórias de “levantados do chão”, mesmo que um deles seja Jesus e outro um heterônimo de Fernando Pessoa.

Se por dentro sua obra exemplava em consistência técnica, no enredo o autor foi abrindo caminhos variados. Dos romances históricos feitos para retificar o passado (Memorial do convento, História do cerco de Lisboa, O ano da morte de Ricardo Reis) passou às alegorias construídas em torno de ideias fantásticas narradas com rigor lógico e ambição filosófica (Livro dos nomes, Ensaio sobre a cegueira, As intermitências da morte, O homem duplicado, A caverna). O primeiro Saramago foi o que conquistou o leitor de romances que se apaixonaram pelos personagens, pelo enredo imaginoso, pelo domínio sublime da arte de contar histórias; o segundo ficou como preferido dos ideólogos e do crítico amargo, por vezes irônico, dos descaminhos da contemporaneidade.

A morte tem o condão de consagrar mitologias. No caso de Saramago, ficou, entre outras, a do escritor que estreou já no ápice da forma e da inteligência, depois de uma vida de muitas atividades práticas, dos domínios da serralheria ao jornalismo partidário. O lançamento do romance Claraboia vai mudar essa história. O livro é de 1953, quando o autor não havia completado ainda 30 anos. E veio cinco anos depois de Terra do pecado, dado à luz aos 25 anos do autor, em 1947, com pouca repercussão. O Saramago de Manual de pintura e caligrafia, de 1977, e depois de Levantado do chão, de 1980, pode ser o que ficou inscrito na história literária em termos de repercussão, mas não foi o das primícias.

Com isso, o interesse sobre a obra de juventude do autor ganha talvez outra inflexão: Saramago já era Saramago no começo dos anos 1950? Claraboia traz uma resposta afirmativa em termos de visão de mundo e de homem, ao mesmo tempo que dá pistas em matéria de arte. O estilo é outro, mas o escritor já estava lá.

Sexo e opressão
A história do livro daria um romance. Em janeiro de 1953, sob o pseudônimo de Honorato, José Saramago encaminha Claraboia ao editor, na forma de datiloscrito (como dizem os portugueses). Recebido, o material acabou indo parar na gaveta e o original – e mesmo a negativa formal – não chegou ao autor. Nos anos 1980, o já consagrado Saramago recebe oferta de editar o livro. O escritor não apenas despreza o oferecimento como destina o volume – caso seus herdeiros julgassem conveniente – a integrar suas obras póstumas. Pode-se avaliar que reagiu emocionalmente à recusa feita ao jovem ou que julgava extemporâneo intercalar no rol das suas obras em processo um romance de juventude. O fato é que o livro continuou onde estava e só agora encontra seus leitores.

O livro é atual, não uma peça de interesse biográfico. Mais que isso, é surpreendentemente maduro para um jovem com pouca experiência, autor de apenas um volume até aquele momento. Há vários elementos de estilo que prenunciam o mestre que se consagraria depois, como o ouvido para os diálogos, a habilidade de infiltrar reflexões, o jeito cético de interpretar a ação dos homens em um contexto pouco promissor. No entanto, a fatura estética é completamente diversa. O narrador onisciente percorre os vários ambientes e acompanha os personagens de perto, mas há um certo distanciamento moral, como uma recusa ao naturalismo descritivo.

Claraboia narra uma história passada durante a primavera de 1952. O título é uma alusão à abertura por onde entra a luz em um edifício de uma rua modesta de Lisboa. Como se o autor retirasse a cobertura do prédio para melhor descrever a vida miúda que habita seu interior. O artifício foi utilizado, com outro formato, em romances como A vida, modo de usar, de Georges Perec, e mesmo no documentário Edifício Master, de Eduardo Coutinho. O ambiente é um cenário moral percorrido pelos personagens. Nas histórias de vida e em seu cruzamento com outros caracteres, vai se desenhando o retrato de uma classe social e de um tempo.

São pessoas como o sapateiro Silvestre, inquilino do térreo, meio filósofo, que aluga um quarto em sua casa ao andarilho Abel, um jovem em busca do sentido da vida, que emula Fernando Pessoa. Os dois, em conversas cheias de encanto, parecem ocupar posições quase míticas em torno dos grandes temas da existência, principalmente da relação entre homens e mulheres, um dos fulcros do romance. No último andar moram as irmãs Adriana, que gosta de música de concerto, e Isaura, que absorve a vida por meio da leitura de romances, entre eles o erotismo diderotiano de A religiosa. Maria Cláudia, que sonha com uma vida moderna e livre, admira a vizinha Lídia, bela mulher sustentada por um homem que a visita três vezes por semana durante as madrugadas. Há ainda a família tóxica formada pelo caixeiro-viajante Emílio e sua mulher, a espanhola Carmen, que criam um filho pouco amado.

Há momentos de política, que aludem a uma crise que pode ser lida como destino de um país sempre à margem de uma Europa – hoje nem tanto – rica e orgulhosa; mergulhos na psicologia, sobretudo das mulheres, personagens mais ricas e que parecem marcar o ritmo dos dias; passagens de intenso erotismo, como no capítulo 29, que narra o encontro cheio de amor e ódio carnal entre Justina e o marido infiel, Caetano. “Da cena noturna em que Justina se mostrou nua pela primeira vez ao marido, nunca se falou. Caetano por cobardia, Justina por orgulho.” A mulher de Saramago sofre, mas deseja mesmo no ódio.

Quando morreu, Saramago estava escrevendo o que seria seu último romance, Alabardas, alabardas! Espingardas, espingardas!, cujo título faz referência a versos de Gil Vicente em Exortação à guerra, de 1513. Seria um livro sobre o tráfico de armas. Sua obra derradeira em vida ficou sendo Caim, concluída em 2009. O escritor deixou muitos escritos e sua correspondência organizada, o que deve dar trabalho aos herdeiros literários e à fundação que leva seu nome. Claraboia, a primeira publicação póstuma, tem o curioso destino de ser um livro tardio que expressa um escritor em processo de formação. Saramago sabia o valor do romance e não o publicou por birra. Não deixa de ser uma graça a mais de um homem tão turrão e ao mesmo tempo cheio de humor. Ficou para a velhice o reencontro com o jovem que um dia foi. O romancista Saramago escreveu com engenho seu último capítulo.

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