”Fragmentos” reúne em livro de pedidos de socorro a listas de compras de Marilyn Monroe

Jerônimo Mesquita no UOL

 

A atriz Marilyn Monroe, em imagem de 'Fragmentos'

A atriz Marilyn Monroe, em imagem de ‘Fragmentos’

Pobres de nós mortais que precisamos de deuses. Marilyn Monroe já era a deusa suprema em vida; quando morreu, aos 36, no auge da beleza e talento, passou a dominar o Olimpo. É a necrofilia como espetáculo. Prova disso é que não param de surgir fotos inéditas, livros especulativos, revelações sensacionalistas, leilões de peças íntimas e trechos de filmes inacabados. Até as gravações de um analista já entraram nessa roda ávida por reforçar o mito.

‘Fragmentos’, livro feito dos escritos de Marilyn, é a mais nova e uma das mais poderosas peças nesse enredo morbidamente festivo e contínuo de adoração, fantasia, inveja e compaixão que envolve as curvas, caras e bocas da antiga Norma Jean. Não fosse ela uma figura de interesse estratosférico, que para milhares ameniza a mediocridade de suas existências, diria-se que o livro é meramente uma oportunista raspa do tacho.

Em certo sentido, não passa disso mesmo. Afinal, os tais textos resultam num monte de anotações confusas, rabiscadas e sem a pretensão de um dia serem lidas. Há algumas curiosas tentativas de poemas, trechos de cartas e diários mal começados, ou conversas consigo mesma e muitas vezes pedidos de socorro feitos na solidão, tédio e desespero. Mas há também meras listas de compras e simples registros de suas falas nos filmes, talvez uma forma de decorar melhor. E isso em envelopes, bloquinhos de hotéis, cadernetas e papeis soltos, que foram encontrados em duas caixas pela viúva de Lee Strasberg, o mentor de Marilyn no Actors Studio, a quem a atriz havia confiado seus bens em testamento.

Divulgação

Atriz Marilyn Monroe posa fumando um cigarro em sacada de prédio em foto de ‘Fragmentos’

 

Mas o livro, além de editado de maneira respeitosa e bonita, com muitas fotos, notas explicativas e fac-símiles dos míticos fragmentos, acaba sendo, como diz um dos editores, uma breve biografia de sua alma sísmica. Muitos viram nele a prova final de que a loira exuberante de ‘Quanto mais quente melhor’, ‘O pecado mora ao lado’ e ‘Os desajustados’ era não apenas a deusa da beleza e do sexo implícito, mas também uma mulher extremamente sensível e inteligente. O estranho é que tentar estabelecer a inteligência de Marilyn revela um preconceito enorme, como se uma mulher não pudesse ser desejada por todos os homens do planeta e, “ainda assim”, ter miolos.

Ela mesma, com sua insegurança crônica, várias vezes explicitada em seus garranchos, parecia buscar essa imagem mais ilustrada, deixando-se posar com livros abertos de Joyce, Heine, Whitman e o próprio Arthur Miller, seu último marido e autor de uma das peças mais emblemáticas do teatro americano: ‘Morte de um caixeiro-viajante’. É dele, aliás, a melhor definição do dilaceramento de Marilyn no curso de sua consolidação como deusa: “Para sobreviver, seria preciso que ela fosse mais cínica, ou, pelo menos, mais próxima da realidade. Em vez disso, ela era uma poeta na esquina, tentando recitar seus versos a uma multidão que lhe arrancava as roupas.”

Marilyn Monroe lê "Ulysses" em foto de 'Fragmentos'

Há de fato alguns momentos de brilho que indicam que talvez ela pudesse ter o talento real de uma poeta caso tivesse se direcionado a isso. Faltava-lhe forma e foco, mas tinha a sensibilidade aguda de escritora. É possível que o turbilhão que era sua vida tenha arrastado esse talento incipiente para a gaveta, entre objetos esquecidos. De qualquer jeito, também é difícil não notar que muitos dos escritos têm um lado quase constrangedor de tão pueris. Mas seria injusto julgar algo que não foi feito para ser examinado. Se estão hoje nesse livro, só se explica pelo fato de que seu público não se contenta apenas com sua imagem, quer também espiar pela brecha na parede de seu quarto, quer descascar sua pele e ver o que tem dentro. Nesse sentido, é quase a dissecação coletiva de um ser ao mesmo tempo frágil e poderoso que escalou o topo de nossas fantasias.

É de lamentar que não haja muitas menções ao seu trabalho propriamente dito. E que pouco se revela de seu convívio com escritores de verdade, como mostra um apêndice ao final, contando anedotas saborosas, entre elas as noites em que Marilyn tomou um porre com Dylan Thomas, dançou com Truman Capote ou jantou ao lado de Isak Dinensen e Carson McCullers, para não falar no dia em que conversou com Saul Bellow. Resta juntar-se à turba de adoradores ou dizer, como disse o blogueiro Daniel Benevides, aqui no UOL, com ironia afetuosa: “Ave Marilyn”.

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