Texto de Matt Richtel e Julie Bosman no The New York Time, traduzido pelo UOL.

Os livros impressos talvez estejam sendo superados pelo crescimento dos livros eletrônicos, mas eles têm um domínio tenaz sobre um grupo particular: as crianças. Os pais insistem que a próxima geração de leitores passe seus primeiros anos com os livros à moda antiga.

Este é o caso até de pais que são leitores ávidos de livros baixados em Kindles, iPads, laptops e telefones. Eles admitem que têm padrões de preferência diferentes para as crianças e explicam que querem que os filhos sejam cercados por livros impressos, que vivenciem a virada física das páginas e aprendam sobre formatos, cores e animais.

Os pais também dizem que gostam de se aninhar com os filhos e um livro e temem que um aparelho brilhante possa conquistar toda a atenção. Além disso, se o Joãozinho babar, o livro talvez seja mais fácil de limpar do que o tablet.
“E tem aquela intimidade, a intimidade de ler e tocar o mundo; aquele maravilhamento quando ela tenta pegar a página comigo”, disse Leslie Van Every, 41, usuária leal do Kindle que mora em San Francisco e cujo marido, Eric, gosta de ler no iPhone. Mas para sua filha de 2 anos e meio, Geórgia, a opção são os livros de árvores mortas, empilhados e jogados por toda a casa.

“Ela só lê livros impressos”, disse Van Every, acrescentando com uma risada que trabalha para uma empresa digital, CBS Interactive. “Ah, que vergonha”.

Enquanto o mundo dos livros adultos está se digitalizando a uma velocidade maior do que a esperada pelos editores, as vendas de títulos eletrônicos para crianças com menos de 8 anos quase não se alteraram. Elas representam menos de 5% das vendas totais anuais dos livros infantis, estimam vários editores, comparadas com mais de 25% em algumas categorias de livros adultos.

Muitos livros impressos também são comprados para serem dados de presente, já que as crianças de seis anos não entendem as delícias do cartão de presente da Amazon.

Os livros infantis também são um ponto luminoso para as livrarias de tijolo e cimento, pois os pais muitas vezes querem folhear o livro todo antes de comprá-lo, algo que em geral não podem fazer com os livros eletrônicos. Um estudo encomendado pela HarperCollins em 2010 revelou que os livros comprados para crianças de 3 a 7 anos frequentemente eram descobertos em uma livraria local –em 38% das vezes.

E há uma questão para debate na era digital: alguma coisa é perdida quando se tira uma foto de um livro de figuras e a converte em um livro eletrônico? Junko Yokota, professor e diretora do Centro para Ensino por Meio de Livros Infantis da Universidade Nacional Louis em Chicago, acha que a resposta é sim, porque o formato e tamanho do livro muitas vezes fazem parte da experiência de leitura. Páginas mais largas podem ser usadas para transmitir cenários mais amplos ou um formato mais alto pode ser escolhido para histórias de arranha-céus.

Tamanho e formato “tornam-se parte de uma experiência emocional, uma experiência intelectual. Há muita coisa que você não pode padronizar e enfiar em um formato eletrônico”, diz Yokota, que dá palestras sobre como decidir quando um livro infantil é mais adequado para formato digital ou impresso.
Os editores dizem que gradualmente estão convertendo mais livros de figuras ao formato digital, apesar de ser um processo caro e demorado, e os desenvolvedores vêm criando aplicativos interativos para livros infantis.

O lançamento de novos tablets da Barnes & Noble e Amazon neste outono deve aumentar a demanda para livros eletrônicos para crianças, mas ainda assim vários editores suspeitam que muitos pais ainda preferirão as versões impressas.

“Definitivamente há uma predisposição para imprimir” disse Jon Yaged, presidente e editor do Macmillan Children’s Publishing Group, que publicou “The Pout-Pout Fish” (o peixe lampreia) de Deborah Diesen e “On The Night You Were Born” (na noite que você nasceu), por Nancy Tillman.

“E os pais não têm o menor problema em comprar livros eletrônicos para si mesmos”, acrescentou.
Este é o caso de Ari Wallach, empreendedor em Nova York obcecado por tecnologia que ajuda empresas a se atualizarem tecnologicamente. Ele mesmo lê no Kindle, no iPad e no iPhone, mas o quarto dos filhos gêmeos está cheio de livros impressos.

“Sei que sou luddita nesse caso, mas há algo muito pessoal em um livro que não existe em 1.000 arquivos em um iPad, há algo que é conectado e emotivo, algo com o qual cresci e com o qual quero que eles cresçam”, disse ele.

“Reconheço que quando tiverem minha idade, será difícil encontrar um ‘livro de árvore morta’”, acrescentou. “Isso dito, acho que o aprendizado com livros é um rito de passagem tão importante quanto aprender a comer com utensílios ou usar o vaso sanitário.”

Alguns pais não querem fazer a mudança para seus filhos nem mesmo na idade escolar. Alexandra Tyler e seu marido leem em Kindles, mas para seu filho Wolfie, 7, os livros são todos impressos.

“De alguma forma, acho diferente”, disse ela. Quando você lê um livro para criança de verdade, ele envolve todos os sentidos. Ensina a eles a virar a página. Tem o cheiro do papel, o tato.”

Há muitos programas de computador que professam ajudar as crianças a aprenderem a ler, por exemplo, dizendo em voz alta uma palavra ou foto iluminada. Nem todos os pais concordam; Matthew Thomson, 38, executivo da Klout, site de mídia social, experimentou esse programa com seu filho Finn, de 5 anos. Mas ele acredita que o filho vai aprender a ler mais rapidamente com a página impressa. Além disso, os vários atrativos dos iPads se tornam uma distração.

“Quando vamos para a cama, e ele sabe que é hora de ler, ele diz: ‘Vamos brincar um pouco de Angry Birds’, disse Thomson. “Se ele pegar o iPad, não vai ler, vai querer jogar. Aí, a concentração para a leitura sai pela janela.”

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