Texto escrito por Amilcar Bettega De Lisboa no Terra Magazine

"Estar dentro de um livro é uma das experiências mais ricas"

Acho que a essa altura do campeonato posso afirmar que, tirando as pessoas que me cercam e que amo, não há nada mais importante e central na minha vida do que a literatura.

Paradoxalmente, nada me é mais atemorizante do que os livros e a literatura. Eles nunca foram para mim sinônimo de prazer garantido. Pelo contrário, muitas vezes são geradores de angústia. Não a angústia intelectual e estética de quem se confronta com toda obra de arte digna deste nome, mas uma angústia paralisante, negativa, que me diminui.

Nunca fui um leitor compulsivo, minha prática de leitura é um tanto complicada, truncada, lenta, com vários períodos vazios e passagens em branco. Não é sempre que tenho vontade de ler, e não raro vivo a leitura como uma coisa maçante, uma tarefa não só difícil mas chata de fazer. Então sou capaz de avançar sem reter quase nada do que leio, como quem dorme durante a viagem – posso até chegar ao fim mas não sei nada do que aconteceu durante. Importante frisar que essa espécie de rejeição ou resistência à leitura independe da qualidade do livro. O que quero dizer é que para mim a entrada no universo de um livro me é sempre (ou quase sempre) penosa e, às vezes, interdita. Menos por uma suposta dificuldade que o livro impõe do que pela minha (falta de) disposiçã0 e/ou capacidade para lê-lo. Eu seria incapaz, por exemplo, de viver o ideal de muita gente que, assim como eu, é apaixonada pela literatura, ou seja, o ideal de passar a vida inteira lendo. Não aguentaria nem a aflição nem o tédio que isso me provocaria, sem falar que jamais teria a capacidade física e mental para levar a cabo tal empreitada. Não posso, portanto, conceber a minha vida inteiramente tomada por isto que é – e eu não tenho nenhuma dúvida a respeito disso – a coisa mais importante da minha vida.

E por que sei que é a coisa mais importante da minha vida? Simplesmente porque não posso conceber a minha vida sem a literatura. Simplesmente eu não existiria, não estaria mais aqui, a vida para mim seria completamente absurda e inútil. Sem nenhum exagero ou força de expressão, mas sem os livros é como se me tirassem o ar. Porque quando consigo entrar em comunhão com determinado livro é como se o universo inteiro se desdobrasse, uma magia se processa e portas e portas e mais portas vão se abrindo sucessivamente em direção ao infinito. Nesse momento eu me justifico perante minha própria existência, eu cresço, eu me torno uma pessoa melhor.

Se são raros esses momentos? Não. Mas nem tão frequentes. É por isso que continuo a persegui-los. E é por isso que me custa tanto fazê-lo. É por isso que tomo desvios e adio tanto o momento de enfrentar um livro, sei que posso estar diante de um acontecimento que me transcende.

E acho que deve ser por isso também que me interessa tão pouco a história que o livro conta. Penso que a tal comunhão entre um livro e seu leitor só pode se dar por meio da linguagem, que é, afinal de contas, do que ele é feito, a sua essência. É na frase que está o feitiço, ou o poder de enfeitiçar, é o seu ritmo, suas curvas e suas arestas que criam a vertigem necessária para se sentir de fato “dentro” do livro.

E entrar e estar dentro de um livro assim é uma das experiências mais ricas que me coube viver. E hoje sei que é disso que sou feito.

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