Texto escrito por Vanessa Barbara no Blog da Companhia

Em 2010, a norte-americana Rachael Morrison arrumou um emprego como bibliotecária-assistente do MoMA (Museum of Modern Art), de Nova York. Tomada por um irrefreável ímpeto artístico, resolveu aproveitar seu horário de almoço para dedicar-se à performance “Smelling the Books” (Cheirando os livros), que consistia em cheirar todos os volumes da biblioteca.

A peripécia teve início com o primeiro livro da primeira prateleira, conforme a classificação oficial: o AC5.S4, Sermons by artists, e irá terminar com o número ZN3.R45, Bibliography of the history of art. Há 300 mil volumes ao todo e, até o presente momento, ela só cafungou 300. “É uma ideia corajosa”, declarou David Senior, bibliógrafo do MoMA, “pois alguns dos nossos livros cheiram muito mal.”

Rachael tem o cuidado de discriminar cada fragrância num caderno de registros, anotando o número, o título da obra e uma descrição de seu olor. O objetivo dessa exploração farejadora é suscitar uma discussão sobre o futuro da mídia impressa e a relação do olfato com a memória.

Em suas anotações, o livro Collected papers on museum preparation and installation, de 1927, foi imortalizado com uma só frase: “cheiro de sovaco”. Outro volume, de 1967, American folk art in the collection of the Newark Museum, possui “um cheiro nojento de cocô de cachorro”. The civic value of museums evoca o odor de fumaça de cigarro e de chá, e An experiment in museum instruction tem cheiro de chuva de verão e papel velho. Outros aromas catalogados são o de “abraçar a vovó com sua blusa de lã”, o de cola, urina, talco, sótão, fogueira, parte de baixo do sofá, móveis de madeira, cabelo, esmalte, fritura, cera de chão, protetor solar, meia suja e “nenhum”.

Procurada pela reportagem deste blog, Rachael diz que ainda não chegou a conclusões definitivas, mas que, curiosamente, entre os cheiros mais populares estariam o de flores, sovaco, barro e tomilho.

Diz-se que os livros mais antigos têm um peculiar aroma de baunilha devido a um polímero orgânico presente na madeira, a lignina – similar à vanilina. De acordo com o manual Perfumes: um guia de A a Z, de Luca Turin e Tania Sanchez (inédito no Brasil), a lignina é uma substância presente nas árvores, que serve para unir as fibras da celulose à parede vegetal e aumentar sua rigidez, impermeabilidade e resistência. Altamente volátil, o composto seria exalado pelo papel com o passar do tempo e, por ser muito ácido, também o acabaria amarelando e acelerando sua decomposição.

Essa hipótese se aplicaria somente aos papéis provenientes de pastas de madeira mecânica (“groundwood”), processo que emitiria fragrâncias de vanilina, anisol e benzaldeído. Por outro lado, os compostos resinosos derivados de terpeno (mais impermeáveis à tinta) resultariam em fedores mais canforados, gordurentos e amadeirados. Um cheiro de cogumelos estaria associado a álcoois alifáticos bem fortes, e não estou inventando. Os cientistas também consideram que a presença de 2-etil-hexanol pode gerar emulsões levemente florais e que a combinação de etilbenzeno e tolueno dá em aromas mais adocicados.

Do que se conclui, portanto, que o cheiro dos livros se deve aos compostos voláteis emitidos pelos diferentes materiais de que são fabricados, e que não existe um cheiro específico de “livro velho”. Mais de cem compostos diferentes já foram identificados no papel, entre ácidos, aldeídos, álcoois, cetonas, alcano e terpenos. Ainda assim, na busca de uma unanimidade, pesquisadores da Universidade de Londres publicaram um artigo na revista Analytical Chemistry na qual definem o cheiro de livro velho como sendo “uma combinação de notas campestres com um buquê de ácidos e um toque de baunilha sobre uma base de bolor”.

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