Texto escrito por Camila Kehl do belíssimo blog Livros Abertos

Digo sempre que adoro sebos, e é verdade. Apenas em casos muito especiais — os lançamentos pelos quais não aguento esperar; ou porque, de uma forma meio egoísta, gostaria de ser a primeira e única dona de determinada obra — procuro nas livrarias ou diretamente nas editoras. Na maior parte das vezes, minha busca se dá, em primeiro lugar, nos sebos.

Muitos dos sebos oferecem, como a maioria deve saber, obras raras (normalmente muito antigas), exemplares comuns com marcas do tempo e de manuseio e livros seminovos. Os primeiros são caríssimos, os segundos têm seu preço consideravelmente reduzido e os terceiros são colocados à venda com um desconto pífio. E é essa última categoria que eu não consigo compreender.

Claro que, do ponto de vista comercial, é tudo muito simples. A obra está manchada, tem páginas viradas, a capa está solta? O comprador, óbvio, deve pagar um valor menor. E quando o livro tem aparência de que nunca foi aberto, é edição recente, a capa está intacta, não há folhas amassadas nem dobradas? É uma taxação lógica: o valor deve ser quase o mesmo que aquele pago em uma livraria ou para a editora. Tirando o foco do produto, a pergunta é: como e por que alguém passa adiante (revende) uma obra que claramente foi pouco manuseada?

Quem é que paga caro por um exemplar para sequer abri-lo e revendê-lo em seguida? Qual o propósito?

Vamos pegar o exemplo de Auto-de-fé, do Elias Canetti, editado pela Cosac Naify e vendido normalmente a mais de R$ 80,00. Duvido que alguém faça a compra por impulso e no escuro: sabe-se que dispomos da internet para pesquisar sobre a história, o autor e sua escrita, e que, em uma livraria, temos a possibilidade de ler rapidamente algumas informações para saber do que se trata aquele volume e conhecer quem o escreveu.

O que assombra é o fato de que comprei, por um preço levemente inferior, um exemplar seminovo deAuto-de-fé na Feira do Livro de Porto Alegre — e ele sequer dava mostras de que havia sido aberto. [Vocês podem ver um pedacinho dele aqui.] Sua capa rangeu quando foi deslocada; suas folhas estavam tão grudadas que, intactas, rijas, pareciam coladas. A impressão que dava era a de um livro recém-puxado de uma prateleira de difícil acesso em uma livraria, uma prateleira tão distante e obscura que certamente poucos fregueses puseram suas mãos naquele nicho. A obra mal havia sido aberta. Seu antigo dono mal deve ter se dado ao trabalho de folheá-la.

Tudo bem que ter acesso a informações sobre autor, estilo e enredo não garante, necessariamente, que o leitor vá adorar o livro. Mas o que alguns exemplares demonstram, como quando historiadores ou peritos buscam quaisquer evidências em um objeto ou ambiente, é que quase não foram tocados.

São sutis os detalhes que nos fazem perceber ou imaginar o que já ocorreu àquele volume que, depois de vasculhar o sebo, levamos para nossa casa. Já comprei um exemplar de Flaubert (Três contos) com cheiro de perfume feminino. Uma obra de Beckett (Dias felizes) com algumas páginas cujas orelhas haviam sido dobradas e novamente endireitadas.

E livros com dedicatória? Esses são comuns — e os considero curiosíssimos, cada um a sua maneira. Se eu fosse proprietária de um sebo (sonho), cobraria mais por aqueles com declarações, por exemplo. [Método Camila Kehl de colocação de preço.] Enfim. Livros com dedicatória nos fazem pensar nos que receberam, de amigos, parentes ou cônjuges, uma obra literária de presente. Não satisfeitos, magoados, endividados, os revenderam a sebos. Talvez seja a morte, a impiedosa, quem obrigue os que ficaram a desfazer-se de pertences tão importantes.

Queria abordar os livros que vão parar nos sebos sem terem sido tocados, e acabei entrando na questão da história por trás de cada um. Por falar em obras que são dadas de presente: é bem possível que o exemplar intacto de Auto-de-fé tenha sido oferecido por alguém a alguém. A pessoa que ganhou, sei lá, não gostava de ler (mas quem iria dar Elias Canetti a um sujeito que não gosta de ler?). Mais provável: o felizardo talvez já tivesse o livro (mas por que não trocou por outro?). Há várias possibilidades. Dá para ficar o dia inteiro inventando.

Duas coisas me impressionam. A primeira: seja qual for o motivo pelo qual um livro chegou até suas mãos, é muita sacanagem ignorá-lo. Caso tenha sido um presente, pior ainda: o respeito a consideração por alguém são diretamente proporcionais ao esforço que se faz em nome da obra. Nada serve como desculpa: nem a falta de tempo, nem a dificuldade da escrita, nem gosto pessoal. Eu já ganhei um Paulo Coelho de aniversário. O que eu fiz? Eu o li. E, na primeira oportunidade, agradeci a gentil lembrança. Há uma coisa chamada grosseria com a qual tenho, admito, pouquíssima tolerância. Da mesma forma que me magoaria muito presentear alguém com um livro que em seguida é jogado na estante para acumular pó (o que já me aconteceu), imagino que, caso eu tivesse a mesma atitude, igualmente feriria os sentimentos de alguém. E isso é desumano. De qualquer forma, tenha alguém comprado ou ganhado um livro, goste esse alguém de ler ou não, imagino que a preguiça seja imensa para deixar o pobre volume completamente intacto e para revendê-lo em seguida sem ter sido aberto. Não gostou das primeiras páginas? Tente em outro momento. Tente mais um pouco. Já peguei livros cujas primeiras cem páginas foram um suplício, e que depois se mostraram verdadeiras obras-primas.

Segunda coisa impressionante: não há jeito certo de ler. Óbvio que não há, todo mundo sabe disso, mas não é o tipo de coisa que faz a gente parar para pensar; não é o tipo de pensamento que se formula, mas, quando ele vem, dá margem para muita especulação. A maioria dos meus livros tem pelo menos um marcador guardando uma passagem importante/bela/interessante, e até alguns papeizinhos enfiados no meio das folhas com anotações (não admito fazê-las nas próprias páginas). Mas tem gente que dobra orelha, que cola post-it, que rabisca, que amassa página, que prende clipe, que vira a capa para ler melhor, que deixa beijo de batom, que sublinha passagem, que destaca parágrafo com caneta marca-texto, que, enfim. E tudo isso deixa sua impressão. A única coisa que não deixa, por incrível que pareça, é a indiferença.

Meus livros têm cara de manuseados. Não que eu seja relapsa com eles. Eu apenas gosto deles, e, por isso, os leio.

O que fica é: informe-se. Não gosta de ler? Pesquise por um livro mais simples. Não sabe se aquela obra é boa? Pesquise. Quer saber se vai se adaptar ao estilo do autor? Pesquise. Quer dar um presente? Conhece tua vítima como a ti mesmo (eu, imbecil, fui apostar logo em poesia e me ferrei). Ou, enfim, continuem revendendo livros intocados. Eu, pechincheira nata, agradeço.

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