Publicado originalmente na Folha.com

Kenneth Goldsmith acha que está fazendo arte quando senta e reescreve palavra por palavra a edição do dia do “The New York Times”.

Também anda fascinado com a advogada californiana que publica num blog sentenças de condenações por estupro como se fossem poesia, sem alterar uma única linha.

“Ficou claro que a escrita do futuro tem mais a ver com mudar as coisas de lugar do que com criar novos conteúdos”, afirma ele. “Samplear [utilizar trechos de obras já prontas] alguma coisas vale mais do que essa coisa em si.”

Goldsmith, artista e escritor americano que fundou o site UbuWeb, acredita tanto nisso que escreveu um livro-manifesto. “Uncreative Writing”, ou escrita não criativa, ensina como ser um autor em plena cultura do remix.

Kenneth Goldsmith, fundador do site UbuWeb e autor do livro "Uncreative Writing"

“Essas ideias não são novas, mas não tinham chegado à literatura”, opina. “É um debate ainda muito rudimentar se pensarmos que nas artes visuais a questão de plágio e deslocamento começou com o urinol de Marcel Duchamp, lá atrás, em 1913.”

Das artes plásticas à música, em tempos de difusão ultraveloz na internet, o mundo vem redefinindo a ideia de cópia e plágio, dando muitas vezes peso de original a novas versões do que já existia.

Na literatura, a febre do remix causa as distorções que viraram objeto de estudo de Goldsmith, ele mesmo gastando horas do dia em exercícios tediosos como copiar artigos de jornal para ver onde surgem erros espontâneos, frutos de sua desatenção.

“Tudo o que escrevo é horrível, impossível de ler”, reconhece. “Mas não estou interessado em leitura, é só um estopim para discussões.”

Ao observar falhas de linguagem, Goldsmith concluiu que a raiz disso já estava na poesia concreta dos irmãos Augusto e Haroldo de Campos, na literatura transtornada dos beatniks e na justaposição de tudo, possível só na era da internet.

No ubu.com, por exemplo, é possível ver vídeos dos Beatles e peças de Samuel Beckett. “É um espaço utópico, em que tudo conversa”, diz. “Reenquadro o que existe para criar algo novo, um colapso dos gêneros artísticos.”

Seu próximo passo é reescrever o clássico ensaio do alemão Walter Benjamin sobre as galerias comerciais da Paris do século 19, só que transpondo a ação para as ruas de Nova York no século 20.

Nessa versão, personagens trocam de pele –Baudelaire, por exemplo, vira o polêmico Robert Mapplethorpe.

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