Publicado no Vermelho

Foto: reprodução de processo contra Dilma Rousseff na Justiça Militar

Quando criança, Dilma Rousseff pedalava uma bicicleta amarela e queria ser bailarina ou entrar para o corpo de bombeiros, profissão em que meninas não costumavam pensar. A Presidência da República nunca esteve em seus sonhos, infantis ou adultos. Nunca imaginou que seria a primeira mulher a ocupar o cargo público mais importante do país. Esse e outros recomeços estão no livro “A Vida Quer é Coragem – A Trajetória de Dilma Rousseff”, do jornalista Ricardo Batista Amaral, lançado no dia 15.

O título, da editora Primeira Pessoa, é uma contribuição para conhecer melhor a vida da primeira mulher a comandar o país.  Amaral trabalhou no comitê eleitoral de Dilma, e teve o privilégio de fazer parte dessa fase da vida de Dilma. Mais tarde, completou suas anotações e memórias ouvindo o depoimento de mais de 50 pessoas, lendo o que se escreveu sobre o período e revendo entrevistas concedidas por Dilma para a campanha e ao cineasta Silvio Tendler.

Até então, Dilma nunca havia disputado um único voto. Pouco ou quase nada se conhecia do passado dessa mineira de Belo Horizonte, dois casamentos, uma filha, Paula, e 64 anos a serem completados no dia 14. Mesmo sua passagem por dois dos ministérios mais importantes do governo Lula, o de Minas e Energia e o da Casa Civil, não foi suficiente para dar conhecimento do perfil cheio da ministra escolhida por Luiz Inácio Lula da Silva para sucedê-lo.

A Dilma que emerge do relato de Amaral é uma mulher da sua época, a “geração de 68”. Uma geração que viveu os seus melhores anos num período de intensa efervescência política e cultural, mas também regida pelos fuzis. Engajada na luta armada contra o regime, Dilma ficou presa durante dois anos e dez meses. Os primeiros 22 dias na cadeia foram de tortura. Dilma se considera uma sobrevivente da ditadura. E esse nem foi seu primeiro recomeço.

Só a própria Dilma pode testemunhar sobre a extensão da perda que sentiu com a morte do pai, no ano em que faria seus 15 anos: “Quando meu pai morreu, perdi o meu super superego”.

A vida recomeçou mais uma vez para Dilma no início de 2009, quando ela já era oficiosamente a candidata de Lula à sucessão em 2010. Lula nunca a consultou sobre o assunto, mas no fim de 2008 ela já entendera que era a eleita para concorrer. Então, reuniu a filha Paula e o ex-marido Carlos Araújo num pequeno restaurante italiano do bairro da Tristeza, em Porto Alegre, para confirmar a eles o que para o país todo era especulação.

Araújo observou que ela enfrentaria um dos políticos mais experientes do país, o tucano José Serra. Dilma falou com segurança: “Quem vai para a campanha com um peso sobre os ombros é o adversário, não sou eu”, disse ela ao ex-marido e à filha. “Eu vou com o sangue doce.”

Naquele Natal, Dilma mal podia imaginar que poucos meses depois reuniria os mesmos personagens, no mesmo restaurante, para dar uma notícia que poderia provocar outra reviravolta em sua vida: ela tinha um linfoma, um tipo de câncer nos gânglios. Segundo os médicos, como a doença fora diagnosticada no início, o tratamento tinha grande chance de sucesso. Mas seria doloroso e incômodo. Era preciso avisar Lula o quanto antes, pois, se fosse necessário trocar o candidato, o presidente precisaria de tempo para refazer sua estratégia.

Dilma encontrou-se com Lula no dia 24 de abril, na base aérea de Brasília. O presidente voltava de uma viagem a Buenos Aires. ” Tranquila, Dilminha, tranquila. Você é forte, vai conseguir.” Lula escolheu e elegeu Dilma no rastro de sua imensa popularidade, mais de 80%, segundo as pesquisas de opinião. No entanto, uma eleição dada como certa chegou a ser considerada perdida quando passou para o segundo turno.

O sociólogo Marcos Coimbra, do Instituto Vox Populi, subestimara o crescimento da candidata Marina Silva na reta final da campanha. Dilma não culpou ninguém pelo excesso de otimismo. No primeiro fim de semana após a eleição, a pesquisa interna Vox Populi detectava perda de votos da candidata. Francisco Meira, sócio de Marcos Coimbra no instituto, foi ao encontro de Dilma. Ela estava em São Paulo preparando-se para o primeiro debate do segundo turno.

Com lágrimas nos olhos, Meira disse aos comandantes da campanha eleitoral: “Perdemos essa eleição”. Foi enviado de volta a Belo Horizonte, sede do Vox, sem falar com Dilma. O marqueteiro de Dilma, João Santana, havia elaborado uma estratégia de campanha pela qual iria usar muito a imagem de Lula no primeiro terço de campanha e, depois, começaria o “desmame” da candidata. Lula só ficou sabendo da estratégia num comício em Belém, no dia 14 de outubro, já começado o segundo turno. Só então entendeu um telefonema que recebera mais cedo de Sérgio Cabral, governador reeleito do Rio de Janeiro.

Um analista de pesquisas dissera ao governador que ou o presidente voltava à campanha ou Dilma perderia a eleição. Havia na campanha quem compartilhasse do mesmo sentimento. Lula não perdeu tempo. Ao descer do palanque, cobrou do então presidente do PT, José Eduardo Dutra: “Que negócio é esse de desmamar”? O presidente não parecia disposto a ouvir explicações “Quantos milhões de votos você tem, seu João [Santana]? E você, seu [Antonio] Palocci? E você? E você?”

A campanha, que entrara no vácuo do discurso religioso e moralista, passou a ser instigante politicamente, confrontando-se o Brasil de Lula e o Brasil de Serra-FHC. Mais: o candidato tucano pensava em privatizar o pré-sal?

Em casa, a menina Dilma sempre recebeu estímulos à leitura. Primeiro, os adultos liam para ela. Dilminha, como era chamada, considerou uma vitória quando leu sem ajuda a coleção infantil de Monteiro Lobato. Quando tinha 12 anos, o pai, Pedro Rousseff, lhe deu “O Germinal”, de Émile Zola. Dilma ficou impressionada com as histórias dos mineiros de carvão na França do século XIX. Foi de Zola a Dostoiévski, que teve dificuldade para digerir, e dele para Honoré de Balzac. Aos 18 anos tinha lido praticamente toda a “Comédia Humana”. Livros de Caio Prado Júnior, Sérgio Buarque de Holanda e Celso Furtado foram companheiros de juventude.

Dilma logo estava em contato com a elite do movimento estudantil de Belo Horizonte, a um passo de organizações revolucionárias como a Polop, na qual se engajou, até os grupos de luta armada. O livro revela uma Dilma menos militarista (não se faz revolução sem fuzil) e mais política (fuzil sem política é inconsequência), como se dizia à época.

O livro reafirma que Dilma não participou do roubo do cofre do político paulista Ademar de Barros, no qual estavam guardados US$ 2 milhões ? dinheiro da corrupção. Mas ela e uma colega ajudaram a trocar parte dos dólares ? US$ 1 mil cada uma. A narração do episódio do roubo do cofre de Ademar, que ficava na casa de sua amante, revela um detalhe pitoresco.

Segundo Carlos Araújo, “a oportunidade de trocar uma grande quantia [dos dólares] viria logo depois: um emissário do Banco Bradesco disse a um de nossos militantes que eles queriam comprar nossos dólares, pagando ágio de 20%. Fiquei impressionado, os banqueiros chegaram a nós antes da repressão; era o capital farejando o capital”.

Na clandestinidade, Dilma dividiu uma quitinete no Rio de Janeiro com Iara Iavelberg, uma lenda na esquerda, a companheira de Carlos Lamarca. Iara cuidava da aparência e foi ela quem convenceu Dilma a cortar “essa juba fora de moda”, no salão então badalado de Carlos Jambert, onde serviam champanhe às clientes. “Você é uma feminista, Iara, a primeira que conheço”, disse-lhe Dilma. Colegas de Dilma lembram das vesperais dançantes em Belo Horizonte. A presidente era sempre muito requisitada (à época, os rapazes tiravam as moças para dançar). Também “paquerava” bastante.

O estilo direto já era conhecido na época da luta armada. Dilma casou-se com um colega de organização, Claudio Galeno de Magalhães. A clandestinidade os separou. A discussão sobre a fusão da VPR com a Colina, organização na qual Dilma atuava, levou-a a Porto Alegre. Ela encontrou-se com Galeno e “abriu a questão” sobre o casamento. Separaram-se.

“Estivemos juntos enquanto durou a paixão. Quando acabou, nos separamos, sem rancores, e mantivemos nossa grande amizade”, contou Galeno. Em janeiro de 1970, ele sequestrou um avião da antiga Cruzeiro do Sul e desembarcou em Havana, capital dos revolucionários do continente. Dilma já namorava Carlos Araújo.

A franqueza de Dilma é destacada em outros dois episódios relatados no livro. A presidente da República torceu, às claras, pela seleção brasileira de futebol que disputou a Copa do Mundo de 1970; boa parte da esquerda, à época, achava que a vitória da seleção ajudava a legitimar o regime ditatorial. Ela também defendeu outra decisão dos generais: a ampliação do mar territorial brasileiro de 12 para 200 milhas náuticas. Ao contrário de seus companheiros, ela entendia que se tratava de uma questão de soberania nacional.

Após receber a notícia do câncer, num telefonema do médico Roberto Kalil Filho, a presidente estava numa reunião em Belo Horizonte. Ao desligar o celular, limitou-se a dizer: “A vida não é fácil”. E voltou para a reunião com empresários mineiros. (Raymundo Costa/Valor Econômico)

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Fonte: Valor Econômico

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