Sempre às voltas com a falta do que fazer, cansado de televisão, beirando a desilusão com a cibernética (co’os diabos, estou frito!), minha cabeça não tem mais paciência com ela própria.

Ler? Cansa. Incapacidade de concentração. Um hábito que vem e que vai. Cada vez se indo mais.

Como sofro de insônia, as palavras me rondam a cabeça num ritual macabro, uma dança infernal que só me faz virar e revirar na cama.

Não tomo soníferos. O tempo me ensinou que só há uma técnica para dormir: cansar o corpo durante o dia e, uma vez apagada a luz e fechados os olhos, não pensar em termos de palavras.

Tudo que me passar pela cabeça tem que ser pictórico. Problema é que não tenho jeito ou condições para exercícios e a falta de imagens, mesmo cromos e aquele preto véio fumando, é paupérrima.

Eu deveria ter ido a mais museus, prestado mais atenção a naturezas mortas, não ter esta volta noturna a flashes desconexos de o que fiz, com quem fiz e porque fiz. A insônia é uma máquina do tempo devastadora.

Pior é quando, durante o dia, passando os olhos nisso ou naquilo outro, televisão ou jornal online, dou com assunto que posso, pretensioso que sou, transformar em texto para este belo site, ou sítio, que me honra em ceder espaço três vezes por semana.

Se achei algo que me chamou atenção, não tem por onde: é mais um motivo para passar a noite rolando na cama compondo frases, já que falta-me a competência para tecer considerações.

É verdade, estou sendo muito pessoal. Resultado óbvio de uma noite passada com apenas umas três horas abraçado a esse quase desconhecido, hoje em dia, que é Morfeu, mas que, tempos atrás, já foi meu íntimo.

Onde é que eu estava? Ah, sim. Sem dormir. Tentando evitar a tentação das palavras.

De sábado para domingo, batendo perna no computador, dei minha habitual chegada às nossas folhas e o que elas publicam sem cobrar. De súbito (não vou dizer “de repente”, que essa locução Vinícius tirou patente e eu não sou besta), lá estava um assunto prontinho, recém-saído do forno.

Bastava botar uma palavrinha depois da outra e garantir minha presença no meu canto habitual onde tanjo minha pobre lira. Lá estava e só faltava eu dar o que o Jaguar, de sacanagem, gostava de chamar de meu “molho inconfundível”. Pois tomem molho.

No dia 30 de novembro, em São Paulo, mediante grande interesse da mídia e do populacho, Rosana Ferreira, de 25 anos, foi consagrada com o título de “Miss Bumbum 2011”.

Além da glória da vitória entre 14 outras jovens (quero crer que jovens), ela abiscoitou R$ 5 mil e declarou aos vários repórteres e blogueiros que vai investir tudo em beleza.

Boa de “bumbum” (vamos ver essa história já, já), abunda também em Rosana uma inteligência vivaz e uma séria disciplina de vida.

Conforme suas próprias palavras, “não ligo para homem que se interessa pelos meus atributos físicos, pois isso é normal e sei me defender. Quero agora participar de outros concursos e estudar psicologia”.

Rosana malha duro, segundo a nota que li, afim de manter o bumbum firme. Ela encerra a breve reportagem com uma frase de sua lavra que me tirou o raio do sono: “Miss Bumbum tem que ter conteúdo”. Ah, tem, lá isso tem.

Agora minha cisma. Vamos ser francos. O que já foi chamado de “palavrão” entre nós acabou de 20 anos para cá. Homem, mulher, criança e papagaio usam hoje com a maior naturalidade o que eram chamados “termos de baixo calão”.

Isso deve ser saudável, suponho, já que americanos e franceses há muito que deixaram essas bobagens de “palavrão” para lá. “Palavrão”, asseguram-me profissionais, facilita a comunicação.

Aceita essa proposta, apresento minha modesta sugestão. Parem com essa bobagem de “bumbum”. É bunda mesmo e não tem nada demais, mesmo que seja mole ou de menos. Rosana deveria ser a Miss Bunda 2011.

Bunda, como ela diria, tem mais conteúdo e não soa a bobagem. Bumbum quem tem é criança e bebê. Nós, crescidos, e principalmente a Rosana, temos mesmo é bunda. Ela, por sinal, uma senhora bunda a se julgar pelo que vi na net.

Está aí o bom Houaiss e outros dicionários que contam a história da palavra direitinho. Bunda significa isso que sabemos: região glútea, nádegas. Seu original era nbunda e empregada e utilizada pelos angolenses quimbundos da região oeste de Angola, esse simpático país nosso irmão.

Portanto, juntando minha insônia, minha intimidade com dicionários e, mesmo de longe, os atributos físicos de Rosana Ferreira, uma miss Bunda com conteúdo – e que conteúdo! – fica combinado o seguinte: bunda é bunda mesmo e não se fala mais nisso que eu preciso dormir em paz.

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