Texto escrito por Camila Kehl no Livros Abertos

Sou o que dá para se chamar, como diz o poema de Drummond, de gauche. Gauche da geração Y, o que consegue ser ainda mais hilário — praticamente inimaginável. Sou ao mesmo tempo o anjo torto, aquele que vive nas sombras, e o ser errante e desajeitado que é praticamente empurrado em direção à vida. Há, em mim, o desejo de permanecer escondida, a necessidade inelutável de ir em frente e a inequívoca falta de jeito. Uma combinação risível, sem dúvida, e bem menos incapacitante do que parece. O fato é que, se na maior parte do tempo me sinto incomodamente deslocada e até profundamente apartada, vejo a literatura como uma espécie de sopro de ar puro, como uma brisa agradável e fresca em um final de tarde abafado de verão. A literatura sempre fez parte da minha vida. Já disse, em outras oportunidades, que não consigo contar minha própria história sem mencionar os livros e sua participação no meu desenvolvimento; assim, desde muito nova os associo a uma espécie de refúgio (e as qualidades deste refúgio vão depender inteiramente da obra que estiver em minhas mãos). O fato é: uma vez nele, eu me sinto em casa.

É curioso, e ao mesmo tempo é perfeitamente compreensível. É mais do que sabido que a arte não é a vida: é apenas uma maneira de enxergá-la. Não se trata, entretanto, de uma fuga — ao contrário. Arte também é coragem, enfrentamento, ao mesmo tempo uma tomada e uma perda de fôlego. Todos os movimentos artísticos, de alguma forma, se inspiram em algo palpável; o realismo define com evidente precisão o fato de que fazer e consumir arte é também encarar a vida de frente, como olhar para o sol. Assim, a literatura não é exatamente uma pálida imitação da existência, visto que também se apresenta com matizes de cores e é composta por picos de emoções e diversos questionamentos demasiado humanos, além de reconstituir nossos passos pelo mundo. A literatura funciona como uma miragem interessante e voyeurística da vida — e dos pensamentos — de outra pessoa.

A literatura, deliciosa e necessária, é um buraco de fechadura. O espaço através do qual enxergamos é minúsculo — por isso que só cabe um olho por vez, e aí se encontra a razão (se bem que apenas em parte), daqueles que dizem que é uma arte intimista. Mesmo que uma personagem diga pouco, seus gestos demonstram muito: ainda que a consciência não seja das mais ativas, a figura do narrador se impõe e faz a mágica acontecer. O inverso, óbvio, também é válido — quando, em primeira pessoa, alguém expõe suas angústias e conta sua história. Assim, de parágrafo em parágrafo, ainda que se insinue e volte a se esconder, parte de um indivíduo ou de uma situação é posta sob a luz. Admiremos. Temos, diante de nós, uma análise bela da existência, um ponto de vista diferente, um novo olhar sobre nós mesmos. Diante do leitor está uma essência perfeitamente possível.

Não é à toa que as personagens mais emblemáticas da literatura são anti-heróis. Demasiadamente humanos. Nada deixa isso tão claro quanto Dom Quixote, O cavaleiro da triste figura.

Quando se separa as obras pertencentes aos lados (nem sempre distinguíveis) da boa e da pretensa literatura (está última sendo, aí sim, um pálido reflexo de todas as possibilidades de alcance da arte narrativa), enxerga-se, nos gestos e diálogos e linhas de raciocínio e cenários, a diferença gritante entre o humano, e portanto falho, e aquele ranço detestável de perfectibilidade que, quando não vem acompanhado da insinuação de que é um estado inalcançável, e uma busca praticamente patológica, nada tem a acrescentar.

Já a vida, embora esteja recheada de todas as mazelas e sofrimentos e belezas e pecados descritos nos livros, não é assim tão irresistível, embora forneça a matéria-prima para o que tanto nos encanta nas páginas. E não só porque somos nós os protagonistas de nossa própria história, vivenciando na carne os medos, angústias, decepções e desilusões tão comuns. A vida é cruel — e nos barra — na medida em que olhar tão apaixonadamente para o outro tem sido uma tarefa cada vez mais penosa. Desconfiados, erguemos muros. E do alto de nossa fortaleza lançamos pedras em quem quer que tente escalá-la, protegendo não-sei-o-quê que nos é tão caro (talvez nossa reputação). Apressados, desesperados, fechamos os olhos e os ouvidos para o outro enquanto nos refugiamos em compromissos inadiáveis, que escondem ou não nos permitem chegar (porque nos falta coragem, disposição, consciência e, principalmente, uma folga para respirar) a quem realmente somos.

Nosso tempo é frenético. Já não cabemos nele. Nessa pressa, não há mais espaço para os anti-heróis que tentam e erram, e tornam a errar, e se tornam maravilhosamente errantes; não há mais lugar para o poeta que saboreia a vida ora com calma, ora com fúria; não há mais espaço para o experimentador; não há mais espaço para o questionador — a impressão que se tem é que a maior parte de nossos problemas se resolve com um punhado de pílulas. Dom Quixote, nesse sentido, não caberia no século XXI. Tampouco Jose Arcadio Buendía, que é mais jovem que aquele que o antecedeu no quesito “excentricidades”. E nem Harry Haller, nem Elizabeth Bennet, nem, é lógico, o alter-ego de Marcel Proust.

É por isso que digo que sou gauche, e não sem constrangimento. Não há mais lugar para os desajustados, os que vivem de fora dessa normalidade artificial, morna e rasa. Quem nasceu com as oportunidades que eu tive deve, necessariamente, tornar-se um vencedor — e não há dúvidas sobre o que é ser um vencedor: acumule dinheiro e poder, diz o senso comum, e você terá vencido na vida.

Gosto da literatura por isso: porque as personagens mais emblemáticas não estão travestidas de uma aura de sucesso e perfectibilidade indefectível. São falhas, desengonçadas, perdidas, hilárias, vivas. E é fácil chegar ao seu âmago, e também identificar-se com elas.

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